Rubro-Negro tem 22 gols em 22 jogos no Campeonato Brasileiro, atravessa quatro rodadas sem marcar e vê o ataque se transformar num problema que já não cabe debaixo do tapete
Em alguns momentos o futebol parece fazer uma pergunta cruel: “E o gol?”. O Vitória, neste instante, não tem resposta. O 4 a 0 sobre o Athletico, pela Copa do Brasil, foi uma dessas noites em que a bola resolveu obedecer. Na Série A, porém, ela anda rebelde. O Rubro-Negro não marca há quatro partidas, soma apenas 22 gols em 22 rodadas e tem o segundo pior ataque da competição.
O futebol tem dessas ironias. Num dia, quatro gols descem pelo Barradão como uma tempestade. No outro, o mesmo time passa a olhar para a trave como quem olha para uma porta fechada. O Vitória de Jair Ventura vive justamente essa contradição: fez do 4 a 0 sobre o Athletico um espetáculo de força na Copa do Brasil, mas, no Campeonato Brasileiro, atravessa uma seca que já começa a ganhar contornos dramáticos.
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Na Série A, são quatro jogos consecutivos sem balançar as redes: um empate e três derrotas. O Rubro-Negro marcou apenas uma vez nos cinco jogos disputados no segundo semestre pela competição. Esse único gol apareceu na vitória sobre o Vasco, na 19ª rodada. Depois, silêncio.
E o silêncio, no futebol, costuma ser mais barulhento do que parece.
O Vitória sofreu oito gols nesse mesmo período e ainda não comemorou sequer uma vez no segundo turno do Campeonato Brasileiro. No recorte, o time é o lanterna da competição. Já são 381 minutos sem marcar, considerando também os 21 minutos finais da partida contra o Vasco.
A conta da seca
A sequência é desenhada por quatro partidas que explicam, sem necessidade de metáfora, o tamanho do problema:
- Botafogo 0 x 0 Vitória — jogo atrasado da quarta rodada;
- Remo 2 x 0 Vitória — 20ª rodada;
- Vitória 0 x 4 Palmeiras — 21ª rodada;
- Flamengo 2 x 0 Vitória — 22ª rodada.
Se a conta for ampliada para todas as competições, o jejum fica ainda mais revelador. Em sete partidas disputadas pelo Vitória no segundo semestre, o time passou em branco em cinco. As exceções foram justamente as vitórias sobre Vasco e Athletico. Além das quatro partidas sem gol na Série A, houve também a derrota para o Furacão no jogo de ida da Copa do Brasil.
O atual jejum é o maior do Vitória na Série A desde o período entre o fim de maio e meados de julho do ano passado. Naquela ocasião, o Rubro-Negro passou cinco jogos sem marcar, acumulando duas derrotas e três empates.
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Agora, a história volta a rondar o Barradão. E história, como se sabe, não costuma pedir licença para entrar.
Um ataque que se explica pelos números
Os números não fazem literatura, mas às vezes contam uma história mais cruel do que qualquer cronista. O Vitória tem 22 gols em 22 rodadas da Série A. É o segundo pior ataque do campeonato, à frente apenas da Chapecoense, que marcou 20 vezes.
O dado mais incômodo é outro: o Vitória terminou oito das 22 rodadas sem fazer gol. Isso representa pouco mais de 36% das partidas disputadas.
É como se, em mais de um terço do campeonato, o ataque rubro-negro tivesse simplesmente desaparecido de cena.
E quando um time passa tanto tempo sem marcar, não existe apenas uma explicação. Existe uma coleção delas. Falta de eficiência, dificuldade para transformar oportunidades em finalizações decisivas, dependência de determinados jogadores e, sobretudo, uma incapacidade de fazer o gol aparecer com regularidade.
Os gols têm poucos donos
Há outra particularidade nesse Vitória: os gols estão concentrados. E muito.
Renê é o principal artilheiro do time na Série A, com cinco gols. Renato Kayzer aparece logo atrás, com quatro. Juntos, os dois respondem por mais de 40% dos gols rubro-negros no campeonato.
A lista completa mostra como a produção ofensiva está espalhada por poucos nomes:
- Renê: cinco gols;
- Renato Kayzer: quatro gols;
- Erick: dois gols;
- Gabriel Baralhas: dois gols;
- Diego Tarzia: dois gols;
- Matheuzinho: dois gols;
- Ramon: dois gols;
- Dudu: um gol;
- Zé Vitor: um gol;
- Cacá: um gol.
No campeonato, Kayzer e Renê são os dois principais responsáveis por manter a estatística ofensiva do Vitória respirando. Mas, na temporada inteira, a ordem se inverte. Renato Kayzer soma 13 gols pelo Rubro-Negro em 2026, enquanto Renê tem 12.
Erick, por sua vez, vive uma situação particularmente curiosa. É o terceiro maior goleador do Vitória na temporada, com 11 gols, mas apenas dois deles foram marcados no Campeonato Brasileiro.
É o tipo de número que parece esconder uma pergunta dentro dele: onde foi parar aquele atacante que tantas vezes encontrou a rede?
No futebol, a resposta quase nunca é simples. O jogador continua sendo o mesmo, o campo continua tendo as mesmas linhas e a trave continua com os mesmos três postes. Mas existe alguma coisa invisível entre a intenção e o gol. Às vezes é confiança. Às vezes é fase. Às vezes é apenas futebol, esse sujeito caprichoso que se recusa a explicar seus próprios crimes.
Agora, o Barradão
E talvez o destino tenha escolhido o lugar certo para tentar mudar essa história.
O Vitória terá dois jogos consecutivos no Barradão. Primeiro, recebe o Botafogo neste domingo, pela 23ª rodada da Série A. Uma semana depois, vem o Ba-Vi 508.
São duas partidas grandes, duas oportunidades para um ataque que precisa voltar a respirar. O Vitória já mostrou, contra o Athletico, que sabe transformar uma noite em tempestade de gols. Também derrotou o Vasco por 1 a 0 recentemente, provando que a bola ainda pode encontrar o caminho da rede quando tudo parece perdido.
O problema é que o futebol não vive de lampejos. Vive de repetição. De insistência. De gols que deixam de ser exceção e passam a fazer parte da rotina.
O Vitória precisa disso agora.
Precisa que Renê apareça. Precisa que Kayzer apareça. Precisa que Erick reencontre a velha pontaria. Precisa que os outros jogadores também assumam a responsabilidade de transformar posse, correria e vontade em uma coisa muito mais simples e muito mais preciosa: bola dentro.
Porque, no fim das contas, o futebol é um jogo de noventa minutos inventado para uma pergunta que dura apenas um segundo.
Gol.
E o Vitória está há 381 minutos esperando pela resposta.
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Análise especial sobre o momento ofensivo do Rubro-Negro na Série A


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