O futebol às vezes tem memória. E quando resolve lembrar, não pede licença. O sorteio da Copa do Brasil colocou novamente Vasco e Vitória frente a frente, agora nas quartas de final, como se o destino tivesse decidido reabrir uma velha gaveta de histórias. Será a quinta vez que os dois clubes se encontram na competição. E, nas quatro anteriores, o Leão saiu três vezes de pé.
O primeiro encontro será no Rio de Janeiro, com mando do clube carioca. A segunda partida terá o Barradão como palco. É ali, diante da torcida rubro-negra, que o Vitória decidirá quem continuará respirando no mata-mata.
A definição da casa no segundo jogo não é um detalhe. No futebol brasileiro, há estádios que são apenas estádios. E há aqueles que parecem ter memória própria. O Barradão pertence à segunda categoria. Ali, o Vitória já virou partidas, desafiou prognósticos e transformou o impossível em uma palavra de pouca utilidade.
Vasco x Vitória — 26 de agosto
Vitória x Vasco — 3 de setembro
Não será, portanto, um encontro inédito. Vasco e Vitória já escreveram quatro capítulos na Copa do Brasil. E a contabilidade desses encontros conta uma história particularmente simpática aos baianos: três classificações do Vitória contra apenas uma do Vasco.
A primeira delas aconteceu em 1989, justamente na primeira edição da Copa do Brasil. O Vasco foi o segundo adversário do Vitória naquela caminhada. Depois de eliminar o Avaí na estreia, o Rubro-Negro encontrou o time carioca nas oitavas de final. Empatou em Salvador por 0 a 0 e venceu no Rio de Janeiro por 2 a 1. Era o futebol fazendo aquilo que mais gosta: contrariando a lógica.
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Em 2009, entretanto, houve a vingança carioca. Nas quartas de final, o Vasco construiu uma vantagem contundente ao vencer por 4 a 0 no primeiro jogo. O Vitória ainda buscou reação no Barradão, mas o empate por 1 a 1 não foi suficiente. Naquele capítulo, a camisa cruz-maltina levou a melhor.
Um ano depois, os caminhos voltaram a se cruzar. E o Vitória escreveu uma das páginas mais marcantes desse confronto. Nas quartas de final de 2010, o Rubro-Negro venceu o primeiro jogo por 2 a 0 no Barradão. No Rio, perdeu por 3 a 1. Mesmo assim, avançou pelo critério do gol marcado fora de casa, regra que já não existe na Copa do Brasil.
Aquela classificação tinha peso especial. O Vitória avançaria até a final daquela edição da competição, terminando como vice-campeão diante do Santos. O ano de 2010 permanece, portanto, como uma espécie de cicatriz bonita na memória rubro-negra.
O último encontro pela Copa do Brasil aconteceu em 2017. Novamente na terceira fase, o Vitória empatou por 1 a 1 no Rio de Janeiro e venceu por 1 a 0 no Barradão. Três classificações baianas em quatro encontros. A estatística não entra em campo, mas também não costuma ser convidada para sair.
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Um duelo que já aconteceu no Brasileirão
A rivalidade recente também ganhou um capítulo em 2026, desta vez pelo Campeonato Brasileiro. No Barradão, o Vitória derrotou o Vasco por 1 a 0, com gol de Renato Kayzer.
Agora, porém, o cenário é outro. Não existe espaço para o empate confortável, para a conta do campeonato ou para a matemática de uma rodada. Na Copa do Brasil, cada erro pode significar o fim de uma campanha inteira.
Vitória volta às quartas depois de 14 anos
O reencontro com o Vasco ganha ainda mais importância porque o Vitória volta às quartas de final da Copa do Brasil depois de 14 anos. O clube baiano é, ao lado do Atlético-MG, uma das equipes com mais participações na história do torneio: são 37 edições disputadas, com apenas uma ausência, em 1992.
A melhor campanha aconteceu justamente em 2010, quando o Vitória alcançou a decisão. Agora, 14 anos depois de sua última presença nessa fase, o time comandado por Jair Ventura tenta abrir uma nova porta na história do clube.
E não chegou até aqui por acaso. Antes de encontrar o Vasco, o Vitória precisou eliminar Flamengo e Athletico. Foram duas classificações construídas com viradas e doses generosas de sofrimento — esse ingrediente que o futebol brasileiro parece considerar obrigatório quando pretende fabricar uma história inesquecível.
O Vitória já garantiu R$ 9 milhões em premiações nesta Copa do Brasil. A classificação para a semifinal acrescentaria outros R$ 9 milhões aos cofres do clube. É o tipo de dinheiro que, no futebol moderno, também joga.
O dinheiro que está em jogo
A Copa do Brasil transformou a campanha do Vitória também em uma importante fonte de receita.
- 5ª fase: R$ 2 milhões
- Oitavas de final: R$ 3 milhões
- Quartas de final: R$ 4 milhões
- Semifinal: R$ 9 milhões
- Vice-campeão: R$ 34 milhões
- Campeão: R$ 78 milhões
O valor financeiro dá ao confronto uma dimensão que vai além da classificação. Para um clube que precisa equilibrar futebol competitivo e responsabilidade administrativa, cada fase superada representa dinheiro entrando nos cofres. O campo decide o vencedor. A diretoria, depois, precisa transformar a vitória em planejamento.
Mas há uma coisa que nenhuma planilha consegue registrar: o peso emocional de uma noite de Copa do Brasil no Barradão. O dinheiro pode ser contado. A tensão, não.
E é justamente aí que o Vitória pretende fazer valer sua condição de mandante na segunda partida. A torcida terá novamente a missão de transformar arquibancada em pressão, pressão em energia e energia em futebol.
O próximo capítulo
A história, agora, está aberta. Vasco e Vitória entrarão em campo sabendo que já se enfrentaram quatro vezes na Copa do Brasil. O passado oferece ao Rubro-Negro uma vantagem estatística, mas não garante absolutamente nada.
O Silêncio das Estrelas
“Algumas mensagens não devem ser respondidas.”
Uma mensagem surge do silêncio do universo. E, quando alguém finalmente consegue escutá-la, talvez seja tarde demais para permanecer em silêncio.
O futebol não respeita currículo. Uma bola desviada, um erro de marcação, um goleiro inspirado ou um minuto de desatenção podem transformar décadas de retrospecto em papel velho.
O Vitória terá dois jogos para escrever a quinta história. Primeiro, no Rio. Depois, diante de sua gente, no Barradão. E talvez seja esse o detalhe que torne o confronto ainda mais interessante: o Leão sabe que terá a última palavra dentro de casa.
- Quartas de final: 26 de agosto (ida) e 3 de setembro (volta)
- Semifinal: 1º de novembro (ida) e 13 de novembro (volta)
- Final: 6 de dezembro, em jogo único


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