Leão apresenta aproveitamento inferior quando tem mais tempo para treinar e chega ao próximo desafio pressionado pelo calendário e pela necessidade de reação
Jair Ventura reclama da falta de tempo para treinar. E reclama com razão, porque o calendário brasileiro não concede ao treinador sequer o direito de respirar. Mas os números do Vitória, caprichosos como são os números quando resolvem contrariar o discurso, contam outra história: em 2026, o Rubro-Negro tem aproveitamento melhor quando quase não tem tempo para treinar.
A derrota por 1 a 0 para o Vasco, em São Januário, pelo primeiro jogo das quartas de final da Copa do Brasil, trouxe novamente o assunto à mesa. O Vitória atuou com um jogador a mais, não conseguiu transformar a superioridade numérica em vantagem no placar e voltou para Salvador com a obrigação de reverter a situação no Barradão.
Depois da partida, Jair Ventura voltou a falar sobre a falta de treinamento. O treinador foi direto, quase brutal na sinceridade, ao explicar que o Vitória vive espremido entre viagens, recuperação física e jogos.
“Não temos treino, amanhã a gente só viaja, recupera e joga. Não posso mentir para minha torcida, não tenho condições de trabalhar porque não tem treino. Não teve trabalho para esse jogo e não vai ter outra vez. Estamos em duas competições e o calendário não nos oferece tempo para trabalhar”, reclamou Jair Ventura após a derrota para o Vasco.
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Ler notícia →A frase parece definitiva. Só que o futebol, essa criatura maliciosa, gosta de acrescentar um ponto de interrogação às certezas. Os números mostram que o Vitória não necessariamente joga melhor quando recebe mais tempo de preparação. Em determinadas circunstâncias, acontece justamente o contrário.
Os números do Vitória
Jair Ventura comandou o Vitória em 45 partidas na temporada. Em 35 delas, o time teve quatro dias ou menos de preparação. É um retrato bastante fiel do futebol brasileiro: joga-se muito, viaja-se muito e treina-se pouco.
Nesses 35 jogos de preparação curta, o Vitória conseguiu 17 vitórias, cinco empates e 13 derrotas. O aproveitamento é de 53,3%.
Nas outras dez partidas, quando teve cinco dias ou mais para se preparar, o Rubro-Negro venceu quatro vezes, empatou duas e perdeu quatro. O aproveitamento caiu para 46,6%.
Ou seja: a semana livre, que em tese deveria ser um pequeno paraíso para qualquer treinador, não produziu no Vitória os resultados que se imaginaria. Ao contrário. A equipe foi mais eficiente quando teve menos tempo para pensar, preparar e ensaiar.
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Quando o recorte é apenas nacional
O cenário continua semelhante quando são consideradas apenas as competições nacionais, Série A e Copa do Brasil. A diferença, entretanto, diminui.
Com semanas livres, o aproveitamento do Vitória é de 38,8%. Quando o intervalo entre as partidas é menor, o índice sobe para 40,6%.
Mas existe ainda uma fotografia mais recente, e ela talvez ajude a entender a irritação de Jair Ventura. Considerando apenas o segundo semestre, depois da intertemporada, o Vitória tem aproveitamento de 58,3% nos jogos em que contou com semanas livres. Quando teve menos de cinco dias para se preparar, o rendimento despencou para 16,7%: apenas uma vitória em seis partidas.
É aí que mora a contradição. No panorama geral da temporada, o Vitória apresenta números melhores com pouco descanso. No recorte do segundo semestre, porém, a realidade se inverte de maneira dramática.
Jair já falou em “pagar pelo próprio sucesso”
A reclamação contra o calendário não é nova, mas tampouco foi sempre apresentada da mesma maneira. Depois da vitória sobre o Fortaleza no jogo de ida da final da Copa do Nordeste, no fim do primeiro semestre, Jair Ventura preferiu não transformar o calendário em culpado.
Naquela ocasião, o treinador afirmou que o Vitória estava “pagando pelo próprio sucesso”, por disputar simultaneamente Série A, Copa do Brasil e Copa do Nordeste.
“Nosso time está esfarelando, não é culpa do departamento médico, e a gente não pode botar a culpa no calendário. Nós estamos pagando o preço pelo sucesso, por ser bem sucedido nas três competições. Esse grupo é merecedor, eles entenderam que o momento é de sacrifício. Esse grupo honra a camisa do Vitória, por mais que estejam cansados e com dor, a gente sabe a importância de ficar marcado na história”, disse Jair no início de junho.
Agora, meses depois, a realidade parece cobrar uma conta diferente. O Vitória continua envolvido em competições importantes, mas a sequência de jogos começa a deixar marcas. E Jair Ventura sabe que não existe treinamento milagroso capaz de inventar horas que o calendário simplesmente não oferece.
A viagem para Belo Horizonte
E o calendário não concede trégua. Depois de enfrentar o Vasco em São Januário, o Vitória terá novamente pouco tempo para trabalhar. A equipe segue viagem para Belo Horizonte, onde enfrentará o Atlético-MG na Arena MRV, pela 25ª rodada do Campeonato Brasileiro.
A partida está marcada para as 18h30 (horário de Brasília) deste sábado. Será mais uma viagem casada, mais uma partida em sequência e mais uma oportunidade para o Vitória tentar transformar o cansaço em resposta dentro de campo.
CLASSIFICAÇÃO DO BRASILEIRÃO
Os jogos com cinco dias ou mais de preparação
1. Vitória 4 x 0 Juazeirense — Campeonato Baiano — 18 dias de preparação.
2. Palmeiras 5 x 1 Vitória — Série A — cinco dias.
3. Vitória 1 x 2 Flamengo — Série A — seis dias.
4. Vitória 1 x 0 Bahia de Feira — Campeonato Baiano — sete dias.
5. Vitória 1 x 1 Jacuipense — Campeonato Baiano — cinco dias.
6. Bahia 2 x 1 Vitória — Campeonato Baiano — cinco dias.
7. Vitória 1 x 0 Vasco — Série A — 20 dias.
8. Botafogo 0 x 0 Vitória — Série A — seis dias.
9. Vitória 1 x 0 Botafogo — Série A — seis dias.
10. Vitória 0 x 2 Bahia — Série A — seis dias.
Os jogos com quatro dias ou menos de preparação
1. Vitória 1 x 0 Bahia — Campeonato Baiano — três dias.
2. Vitória 2 x 0 Remo — Série A — dois dias.
3. Vitória 3 x 0 Galícia — Campeonato Baiano — três dias.
4. Bahia 1 x 1 Vitória — Série A — três dias.
5. Vitória 2 x 0 Atlético-MG — Série A — dois dias.
6. Grêmio 2 x 0 Vitória — Série A — quatro dias.
7. Vitória 1 x 0 Mirassol — Série A — dois dias.
8. Vitória 1 x 2 Botafogo-PB — Copa do Nordeste — dois dias.
9. CRB 2 x 4 Vitória — Copa do Nordeste — dois dias.
10. Cruzeiro 3 x 0 Vitória — Série A — três dias.
11. Chapecoense 1 x 1 Vitória — Série A — três dias.
12. Vitória 4 x 1 Juazeirense — Copa do Nordeste — dois dias.
13. Vitória 2 x 0 São Paulo — Série A — dois dias.
14. Vitória 3 x 1 Piauí — Copa do Nordeste — três dias.
15. Vitória 0 x 0 Corinthians — Série A — dois dias.
16. Flamengo 2 x 1 Vitória — Copa do Brasil — três dias.
17. Athletico 3 x 1 Vitória — Série A — três dias.
18. Confiança 2 x 2 Vitória — Copa do Nordeste — dois dias.
19. Vitória 4 x 1 Coritiba — Série A — dois dias.
20. Vitória 1 x 0 Ceará — Copa do Nordeste — três dias.
21. Fluminense 2 x 2 Vitória — Série A — dois dias.
22. Vitória 2 x 0 Flamengo — Copa do Brasil — quatro dias.
23. Bragantino 2 x 0 Vitória — Série A — dois dias.
24. Vitória 6 x 2 ABC — Copa do Nordeste — dois dias.
25. Vitória 2 x 0 Internacional — Série A — dois dias.
26. ABC 3 x 4 Vitória — Copa do Nordeste — três dias.
27. Santos 3 x 1 Vitória — Série A — dois dias.
28. Fortaleza 1 x 2 Vitória — Copa do Nordeste — dois dias.
29. Vitória 2 x 1 Fortaleza — Copa do Nordeste — três dias.
30. Remo 2 x 0 Vitória — Série A — dois dias.
31. Vitória 0 x 4 Palmeiras — Série A — dois dias.
32. Athletico 2 x 0 Vitória — Copa do Brasil — quatro dias.
33. Vitória 4 x 0 Athletico — Copa do Brasil — dois dias.
34. Flamengo 2 x 0 Vitória — Série A — dois dias.
35. Vasco 1 x 0 Vitória — Copa do Brasil — dois dias.
Os números, no fim, não absolvem nem condenam o calendário. Eles apenas colocam diante do Vitória um espelho. E espelho de futebol não costuma mentir: mostra o time como ele é, inclusive quando ninguém quer olhar.
O Vitória terá agora Atlético-MG pela frente, depois de uma viagem ao Rio de Janeiro e de uma derrota que ainda precisa ser digerida. Jair Ventura pede tempo. O calendário nega. E o campo, indiferente às duas coisas, continuará exigindo respostas.



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