Sem Matheuzinho, sem Erick e carregando lesões como cicatrizes de guerra, o Vitória entra no Maracanã com a estranha dignidade dos times que sofrem
O Vitória desembarca no Rio de Janeiro como um sujeito de terno amarrotado entrando num baile da alta sociedade. O Maracanã, esse velho teatro das vaidades nacionais, verá neste sábado um Rubro-Negro cheio de ausências, mas perigosamente vivo. Porque o futebol possui dessas ironias que fariam o homem mais frio sorrir no canto da boca: justamente quando faltam os craques, aparecem os homens dispostos a morrer pela bola.
Jair Ventura fechou nesta sexta-feira a preparação para enfrentar o Fluminense pela 15ª rodada do Campeonato Brasileiro. E o treinador carrega consigo um problema que é quase um romance psicológico: precisa montar um time competitivo enquanto o elenco vai se esfarelando como parede antiga sob chuva de inverno.
Matheuzinho está suspenso. Erick também não joga após punição por críticas à arbitragem. Cacá ficou em Salvador com desconforto muscular. E o Vitória, esse organismo sentimental chamado clube de futebol, terá de reinventar seus pulmões para respirar no Rio de Janeiro.
CANAL VITÓRIA EM DESTAQUE
A tendência é que Ronald ganhe espaço no meio-campo, embora Diego Tarzia também apareça como possibilidade. Já no ataque, Marinho surge como provável substituto de Erick. E veja a beleza melancólica do futebol: o sujeito que ontem parecia apenas opção de banco amanhece convocado para salvar uma noite inteira.
No Barradão, o torcedor aprendeu nos últimos meses que este Vitória não joga apenas futebol. Joga também contra desconfianças, lesões, suspensões e contra a memória amarga das derrotas fora de casa. O Rubro-Negro ainda busca sua primeira vitória como visitante neste Brasileirão. E não existe criatura mais perigosa do que um time cansado de passar vergonha longe dos seus domínios.
Jair Ventura parece compreender isso. O técnico vem moldando o time sem dogmas, sem fanatismos táticos, quase como um cronista improvisando frases diante da tragédia. Ora usa três zagueiros, ora dois atacantes, ora inventa laterais que atacam como pontas. O treinador virou uma espécie de operário emocional do elenco.
E há ainda o retorno de Baralhas e Renato Kayzer. Ambos voltaram recentemente após lesão e podem reaparecer entre os titulares. Kayzer, sobretudo, carrega consigo o tipo de aura que transforma centroavante em personagem literário. O atacante vive dessa profissão perigosa de empurrar multidões entre o céu e o inferno em questão de segundos.
A provável escalação do Vitória tem Lucas Arcanjo; Nathan Mendes, Edenilson ou Neris, Luan Cândido e Ramon — caso reúna condições físicas — ou Jamerson; Baralhas, Martínez, Zé Vitor e Ronald ou Diego Tarzia; Marinho e Renê ou Renato Kayzer.
Enquanto isso, o departamento médico segue povoado. Gabriel Vasconcelos, Edu, Camutanga, Ricceli, Claudinho, Mateus Silva, Dudu, Rúben Ismael e Pedro Henrique continuam fora. É quase uma enfermaria sentimental.
Mas o futebol, esse canalha adorável, não respeita lógica alguma. O Fluminense é terceiro colocado, soma 26 pontos e joga em casa. O Vitória aparece apenas em nono, com 18. Na teoria, existe uma distância razoável entre ambos. Na prática, o futebol costuma cuspir na teoria com espantosa frequência.
E talvez seja justamente isso que seduza o torcedor rubro-negro neste sábado. Não a certeza da vitória — porque ela nunca existe —, mas a possibilidade do improvável. O Maracanã verá um Vitória incompleto, ferido e desfalcado. Mas verá também um time carregando algo que nenhuma tabela consegue medir: fome.



0 Comentários