O futebol é uma máquina de moer canelas, almas e esperanças. Não se fabrica desgaste da noite para o dia; o caos do nosso calendário vem sendo cultivado há décadas por cartolas que confundem organização com improviso. O Vitória, contudo, atravessa essa tempestade como um sujeito ferido que ainda encontra forças para cerrar os punhos.
Depois de derrotar o ABC por 4 a 3, em Natal, e garantir vaga na final da Copa do Nordeste, a delegação rubro-negra desembarcou em São Paulo quase como quem sai de uma guerra civil. Avião parado na pista, espera interminável em Guarulhos, jogadores exaustos, fisiologia em alerta e o relógio avançando sem piedade. A vida do futebol brasileiro, como ela realmente é, não conhece romance: ela cobra sangue.
Nesta sexta-feira, o Vitória realiza treinamento no CT do Palmeiras antes de seguir de ônibus para Santos, onde enfrenta o Santos na Vila Belmiro pela última rodada antes da paralisação para a Copa do Mundo. O detalhe cruel é que o Leão chega para o duelo sem descanso, sem tempo e sem o zagueiro Cacá, suspenso por cartões amarelos.
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E ainda assim, o Vitória continua avançando. Há times que tropeçam diante da primeira dificuldade. Há outros que transformam o sofrimento em método de sobrevivência. Jair Ventura parece ter entendido isso. O treinador sabe que o elenco perdeu peças, acumulou desgaste e começa a conviver com o fantasma físico da temporada. Mas há algo naquele grupo que resiste.
“Precisamos nos reinventar”, disse Jair Ventura após a classificação em Natal. A frase parece simples, mas carrega um significado interessante. No futebol brasileiro, reinventar-se virou obrigação semanal. Não existe estabilidade. Não existe repouso. O jogador mal termina uma semifinal e já precisa pensar numa batalha em Santos, quilômetros depois, contra outro adversário faminto.
CLASSIFICAÇÃO ATUALIZADA DO BRASILEIRÃO
O técnico rubro-negro ainda fez questão de valorizar o ABC, adversário que transformou a semifinal num duelo feroz. “Fizemos vantagem de cinco gols em um 10 a 5 contra um ABC que nos deu muito trabalho”, declarou. E deu mesmo. Porque o futebol não aceita farsantes. Só os canalhas da arquibancada virtual acreditam que um agregado elástico apaga o sofrimento dos noventa minutos.
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O Vitória ocupa a 11ª colocação do Brasileirão, com 22 pontos e um jogo a menos. Está a cinco pontos do G-4 e, pela primeira vez em muito tempo, o torcedor começa a olhar a tabela sem aquele velho sentimento de inferioridade que tantas vezes assombrou clubes nordestinos. O complexo do derrotismo ainda ronda o futebol brasileiro, mas o Leão parece decidido a rasgar essa sentença.
O mais impressionante talvez seja justamente isso: o Vitória cansado continua perigoso. O Vitória desgastado continua competitivo. O Vitória remendado continua vivo. Há algo de profundamente humano nessa equipe. Uma mistura de suor, limite físico, orgulho e amor — exatamente como nas grandes aventuras de Dom Quixote.
Porque o futebol não é feito apenas de esquemas táticos. O futebol é feito das paixões eternas que empurram um homem a correr mesmo quando as pernas já morreram. É feito do torcedor que sofre em silêncio na madrugada. É feito do atacante que manca, mas continua correndo. E é feito, sobretudo, da esperança irracional de quem acredita que o próximo jogo pode mudar tudo.



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