Vitória celebra a vaga diante do ABC, projeta a decisão contra o Fortaleza e sonha em gravar o próprio nome na eternidade do Barradão.
O futebol, às vezes, é um sujeito cruel. Noutras, vira poesia suburbana. O Vitória entrou na Arena das Dunas carregando uma vantagem gigantesca construída no Barradão. E mesmo assim houve sofrimento, houve tensão, houve o velho drama rubro-negro, porque sem drama o futebol seria apenas um esporte burocrático.
O ABC, valente como um operário que insiste em trabalhar mesmo depois da sirene final, tentou devolver golpe por golpe. Luiz Fernando marcou duas vezes. Igor Bahia também deixou o dele. Mas o Vitória respondeu com Nathan Mendes, Gabriel Baralhas, Fabri e Erick, num 4 a 3 que teve cheiro de batalha antiga, dessas em que ninguém sai limpo do campo.
Ao final dos 180 minutos, o placar agregado virou uma extravagância ofensiva: 10 a 5 para o Leão. Um resultado tão absurdo que parece mentira de arquibancada, dessas contadas na mesa do bar com o copo tremendo de emoção.
Na coletiva, Jair Ventura surgiu com aquele semblante de homem que atravessou o deserto carregando pedras nas costas.
“Fizemos vantagem de cinco gols em um 10 a 5 contra um ABC que nos deu muito trabalho. Valorizou mais ainda nossa classificação”.
E ali estava o treinador. Não apenas um técnico. Mas um personagem do futebol brasileiro. Um homem perseguido pelas derrotas do passado e seduzido pela glória do futuro.
MELHORES MOMENTOS ABC 3 X 4 VITÓRIA
Jair lembrou que, no ano anterior, o grupo ficou marcado pela permanência dramática na Série A. Agora, deseja outro destino.
“Esse ano queremos ficar marcados por um grande título. Esse grupo merece uma foto lá como tem a do título brasileiro. Os títulos é que marcam a gente na história do clube”.
Há algo profundamente humano nessa frase. O sujeito não quer apenas vencer. Quer existir para sempre. Quer desafiar o esquecimento. Porque o futebol brasileiro é um cemitério de vice-campeões esquecidos.
O treinador também elogiou a Arena das Dunas, num raro instante de contemplação em meio à guerra.
Disse que o estádio é lindo. Que o gramado é impecável. Que o futebol brasileiro precisava de mais palcos assim. E talvez estivesse certo. Porque há estádios que parecem templos e há estádios que parecem ressacas.
Mas nem tudo é paz no reino rubro-negro. Nathan Mendes saiu machucado. Ramon segue fora. O departamento médico parece um confessionário lotado de pecadores arrependidos.
COLETIVA DE IMPRENSA
Jair falou sobre a necessidade de “se reinventar”, palavra típica de quem vive no futebol moderno, esse território em que um treinador dorme herói e acorda ameaçado.
Mesmo assim, o Vitória respira ambição. Está nas oitavas da Copa do Brasil, próximo do G-4 do Brasileirão e agora disputará uma final nordestina depois de 16 anos.
O adversário será o Fortaleza. Um duelo que promete incendiar o Nordeste como um clássico de antigas tragédias gregas.
“Sabemos da força do Fortaleza, mas queremos fazer um grande jogo lá, levar a vantagem para casa e se Deus quiser comemorar com nossa torcida”.
O primeiro jogo será em território cearense. A decisão acontecerá no Barradão. E o Barradão, convenhamos, não é apenas um estádio. É um personagem do futebol baiano. Respira, grita, sofre e ameaça.
Antes da final, porém, existe o Santos na Vila Belmiro. E Jair Ventura sabe que o Brasileirão não permite distrações sentimentais.
Falou sobre “pijama-treino”, expressão típica de quem já percebeu que o calendário brasileiro é uma espécie de tortura medieval aplicada aos clubes.
Também houve espaço para elogios ao ABC. Jair exaltou a coragem da equipe potiguar e afirmou que o adversário “caiu de pé”. Uma frase elegante, rara no futebol brasileiro, onde quase sempre o derrotado é tratado como cadáver.
O técnico ainda destacou Erick, hoje um dos jogadores mais decisivos do país.
Contou que pediu a contratação definitiva do atacante durante as férias. Disse que o atleta vive o melhor momento da carreira.
E talvez esteja aí um dos segredos deste Vitória: a insistência em acreditar quando ninguém mais acredita.
No fim das contas, o futebol continua sendo isso. Uma mistura de fé, tragédia, suor e esperança.
E o Vitória, hoje, parece perigosamente vivo.


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