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Jair Ventura celebra classificação e admite drama desnecessário no Barradão

COPA DO NORDESTE • VITÓRIA EM DESTAQUE
Vitória vence, mas sofre como um aristocrata em ruína: Jair Ventura celebra classificação e admite drama desnecessário no Barradão

Time do Vitória reunido após Vitória sobre o Ceará

Por Redação do Vitória em Destaque — Salvador • 07/05/2026 • Atualizado há instantes

O futebol, amigo leitor, é o único lugar do mundo onde um homem cercado de vantagens ainda consegue dormir abraçado ao desespero. O Vitória tinha dois jogadores a mais. Dois. Uma superioridade numérica que, em tese, deveria transformar o Barradão numa procissão triunfal. Mas o futebol brasileiro não aceita lógica; aceita suor, angústia e aquele sofrimento que sobe pela garganta como soluço de viúva em enterro de coronel.

O Rubro-Negro venceu o Ceará por 1 a 0 e avançou às semifinais da Copa do Nordeste. Bastaria isso para os livros de estatística. Mas o jogo não pertence aos livros frios. Pertence ao coração do torcedor, esse órgão irresponsável que apanha noventa minutos e ainda volta domingo seguinte pedindo mais.

“Era para ser mais tranquilo”, confessou Jair Ventura. E havia na frase uma sinceridade quase constrangedora, como quem admite ter sobrevivido a um incêndio dentro de uma casa molhada.

O Ceará teve Luizão expulso ainda no primeiro tempo. Mais tarde, Alex Silva também pisaria no abismo do cartão vermelho. O Vitória ficou com a faca, o queijo, a mesa e até a cozinha inteira. Ainda assim, sofreu. Sofreu porque o futebol é um vampiro sentimental: ele só se alimenta do drama humano.

O sofrimento como patrimônio rubro-negro

Jair Ventura apareceu na coletiva como um homem satisfeito, mas incapaz de esconder a tensão que ainda escorria do rosto. O treinador reconheceu que o time criou o suficiente para transformar a partida numa goleada sem lágrimas.

Foram 22 finalizações. Dez no alvo. Um bombardeio. Um cerco. Uma ocupação militar do campo ofensivo. E mesmo assim o placar terminou magro, apertado, econômico como salário de poeta.

O gol salvador saiu dos pés de Renato Kayzer, esse personagem que voltou de lesão como um pistoleiro antigo surgindo no último ato do faroeste. Kayzer apareceu para decidir. O atacante transformou a bola numa sentença e o Barradão explodiu naquela alegria violenta que só o futebol produz.

COLETIVA DE IMPRENSA COM JAIR 

Jair Ventura e as “sandálias da humildade”

Há treinadores que falam como burocratas de repartição pública. Jair Ventura, não. O técnico do Vitória parece entender que o futebol exige liturgia. Por isso, tratou de vestir as “sandálias da humildade”, expressão usada por ele próprio para frear qualquer euforia precoce.

O adversário da semifinal será o ABC, mas Jair recusou o salto alto da soberba. Disse que ainda pensa no Fluminense antes de mirar a próxima fase da Copa do Nordeste. E nisso talvez exista sabedoria. O futebol pune os arrogantes como um deus ciumento.

“Temos que pensar grande, mas com humildade”, afirmou o treinador. Frase simples. Mas no futebol brasileiro, a simplicidade costuma esconder dinamite emocional.

O elenco que joga como se estivesse fugindo da própria miséria

Jair também falou sobre o espírito do elenco. E suas palavras revelaram algo raro no futebol moderno: pertencimento. Matheuzinho jogou com ponto no pé. Nathan Mendes deu carrinho de cabeça. Baralhas já havia repetido a insanidade em outra partida. São gestos que desafiam a razão clínica dos departamentos médicos.

O técnico descreveu um grupo unido, quase tribal, em que ninguém deseja abandonar a trincheira. Há nisso um romantismo brutal, uma estética suburbana que o poeta louco certamente transformaria em oração pagã.

Zé Vitor, vindo da Portuguesa, e Renê, egresso da Série D, foram exaltados como homens que encontraram “um lugar ao sol”. Eis o futebol brasileiro: uma fábrica de improváveis. Um país onde desconhecidos viram heróis antes do jantar.

O Vitória parece finalmente encontrar uma identidade. Não uma identidade tática apenas, mas espiritual. O time joga com a alma esfarrapada dos clubes que aprenderam a sobreviver na pancada.

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Barradão: a catedral do exagero emocional

Jair Ventura reconheceu o peso da torcida mesmo numa noite chuvosa, de horário ingrato e transmissão em TV aberta. O Barradão segue sendo essa entidade mística onde o Vitória se transforma.

Em casa, o Rubro-Negro cresce como personagem de tragédia antiga. Fora dela, ainda procura a própria coragem. O treinador admitiu o incômodo com o rendimento longe de Salvador. Quer levar “a força do Barradão para fora”.

Não será simples. Há times que carregam sua alma no estádio. Quando saem dele, tornam-se órfãos emocionais.

O paradoxo rubro-negro

O Vitória venceu. Convenceu em parte. Criou muito. Sofreu demais. Eliminou um velho algoz. Mas terminou a noite ainda cercado de perguntas. E talvez seja justamente aí que mora o encanto do futebol.

Porque o torcedor não quer apenas vitórias. Quer cicatrizes para contar depois. Quer o drama. Quer o medo antes do alívio. Quer sair do estádio sentindo que sobreviveu a alguma coisa.

O Vitória está na semifinal. E no entanto saiu de campo como quem atravessou um temporal segurando fósforos acesos.

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