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Jair Ventura sobe o tom, ignora vantagem e declara guerra total contra o ABC

O Vitória trata a semifinal contra o ABC como homens tratam os grandes perigos: sem sorriso, sem bravata e sem qualquer traço de piedade.
Jair Ventura, técnico do Vitória

O Vitória esmagou o ABC por 6 a 2 no Barradão, construiu uma vantagem quase obscena, mas ninguém na Toca do Leão ousa sorrir como um milionário bêbado depois da loteria. O clube encara a partida de volta como uma decisão de vida ou morte. Porque o futebol, meus senhores, é um canalha. E toda vantagem traz escondida dentro dela a tentação do pecado.

Jair Ventura sabe disso. A diretoria sabe disso. E até o roupeiro do clube parece saber. O técnico voltou a reunir seus jogadores nesta segunda-feira para decidir se o Vitória atravessará Natal como um exército cansado ou como um bando faminto disposto ao “all-in”, essa palavra estrangeira que no futebol significa colocar o coração sobre a mesa e aceitar o risco da tragédia.

O que se viu contra o Internacional, no último sábado, foi quase um drama existencial de Dostoiévski vestido de vermelho e preto. O Vitória venceu por 2 a 0, sustentado mais pela resistência moral do que pelas pernas. O time terminou o segundo tempo cambaleando como um boxeador ferido, desses que continuam de pé apenas porque o orgulho ainda respira.

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Jair Ventura enxergou o esgotamento dos seus homens com a expressão cansada de quem conhece intimamente a tragédia do calendário brasileiro. O treinador admitiu publicamente aquilo que qualquer cristão de arquibancada percebia: o time estava exausto. “A gente praticamente não conseguiu jogar”, confessou. E há confissões que não pertencem à coletiva; pertencem ao confessionário.

O treinador agora discute com seu estado-maior o futuro imediato da equipe. Descansar? Arriscar tudo? Poupar? Atacar? O futebol é cruel porque transforma homens adultos em personagens atormentados pela dúvida. A vida é a arte de não fazer favores. Pois bem: a tabela também não faz favores. O Vitória precisa escolher entre proteger as próprias pernas ou perseguir a glória até o último suspiro.

E enquanto isso a torcida segue apaixonada. Ah, a torcida rubro-negra. Essa multidão que sofre com uma voluptuosidade quase religiosa. “Todo amor é eterno e, se acaba, não era amor.” O torcedor do Vitória parece carregar essa frase no peito como uma maldição sentimental. O Barradão lotado contra o Internacional foi menos um estádio e mais um delírio coletivo. A arquibancada rugia como um bicho antigo, desses que sobreviveram à própria extinção.

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Jair Ventura sabe que há algo de místico naquele estádio. O Vitória se transformou dentro de casa. É um time que sangra, tropeça e vacila fora de Salvador, mas que no Barradão assume a brutalidade dos condenados que recusam o inferno. Talvez porque, como dizia o poeta louco, “sem paixão não dá nem pra beber uma cerveja gelada”. E paixão é justamente o que sobra naquele cimento quente da Avenida Mário Sérgio.

O técnico também falou sobre regularidade. E regularidade, no futebol brasileiro, é quase ficção científica. O Vitória tenta enxergar o G-6 antes da pausa para a Copa do Mundo. “Imagina passar as férias olhando aplicativo e vendo o Vitória lá em cima da tabela”, disse Jair. Eis aí a frase definitiva do futebol moderno: o torcedor já não sofre apenas no estádio; sofre também olhando aplicativos na madrugada.

Há ainda a viagem para enfrentar o Santos. Outro tormento. Outra pedra. Outro fantasma. Jair citou a temporada passada, quando o Vitória conquistou sua primeira vitória fora justamente contra os paulistas. O treinador fala disso como um homem que revisita um velho trauma familiar. Porque no futebol a memória nunca morre; ela apenas espera a próxima rodada.

E no fundo de tudo existe a verdade brutal que o poeta desajeitado conhecia como poucos: “A burrice é uma força da natureza.” Basta um erro. Um relaxamento. Um salto alto. E a vantagem construída com seis gols pode virar desespero. O Vitória sabe disso. Por isso encara o duelo na Arena das Dunas como se estivesse empatado. Como se ainda precisasse sobreviver.

Porque qualquer indivíduo é mais importante do que toda a Via Láctea. E, numa quarta-feira de Copa do Nordeste, um simples zagueiro cansado, um atacante distraído ou um goleiro nervoso podem decidir o destino emocional de milhões de pessoas.

“O Vitória descobriu uma verdade terrível: no futebol, a vantagem mais perigosa é justamente aquela que faz o homem acreditar que já venceu.”

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