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Rubro-Negro enfrenta o Inter-RS, no Barradão, no penúltimo duelo antes da parada do Brasileiro

Depois da noite incendiária contra o ABC, o Vitória volta ao silêncio do treino. Mas o silêncio rubro-negro nunca é paz — é preparação para outra guerra.

Lucas Arcanjo, goleiro do Vitória

O futebol tem dessas crueldades. Há pouco menos de quarenta e oito horas, o Barradão rugia como um Leão faminto diante da goleada sobre o ABC. Os jogadores corriam, a torcida delirava, Osvaldo fazia gol de bicicleta e a noite parecia incapaz de terminar. Mas eis que amanhece Salvador. E o Vitória, esse clube acostumado a viver entre o drama e a redenção, abandona os aplausos para reencontrar o dever: o Internacional espera. E no futebol brasileiro, quem festeja demais cava a própria tragédia.

O treino desta quinta-feira, no CT Manoel Pontes Tanajura, tinha algo de ressaca emocional. Não uma ressaca vulgar, dessas de bar e madrugada. Era uma ressaca de epopeia. Os titulares da goleada por 6 a 2 sobre o ABC surgiram carregando no corpo os sinais de uma batalha recente. Enquanto a torcida ainda repetia os gols em vídeos e mesas de bar, o elenco rubro-negro já mergulhava em botas pneumáticas, banheiras aquecidas e piscinas geladas. Porque o futebol não permite sentimentalismos longos.

Jair Ventura observava tudo com aquele semblante de homem que conhece intimamente o caos. O treinador sabe que a maior armadilha de um time é acreditar demais em si mesmo depois de uma grande vitória. E talvez por isso tenha conduzido o treino como quem tenta impedir que a euforia destrua o equilíbrio.

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Os reservas e aqueles que sequer enfrentaram o ABC foram encaminhados à academia antes do campo. Depois vieram os exercícios físicos orientados por Juninho Nogueira. Agilidade. Equilíbrio. Coordenação. Movimentos rápidos. O futebol moderno exige atletas; o futebol do Vitória exige sobreviventes.

No gramado, Jair Ventura montou confrontos curtos e violentos, daqueles em que o jogador mal tem tempo para pensar antes de decidir. Chutes a gol. Transições rápidas. Balanço defensivo. Recuperação após perda da bola. Tudo executado sob o peso invisível da urgência. Porque o Internacional não encontrará um Vitória em festa. Encontrará um Vitória em estado de alerta.

O Rubro-Negro encara o clube gaúcho neste sábado, às 17 horas, no Barradão, pela penúltima rodada do Campeonato Brasileiro antes da pausa para a Copa do Mundo. Décimo quarto colocado, com 19 pontos, o Leão olha para a tabela como um homem olha para um elevador em queda: sem conforto, sem garantias e sem margem para distrações.

AGENDA DO LEÃO 

Agenda do Leão

E há algo de profundamente teatral nessa sequência rubro-negra. Primeiro o massacre sobre o ABC. Depois o Internacional. Em seguida, a volta da semifinal da Copa do Nordeste em Natal. O Vitória vive comprimido entre a glória e o risco, exatamente como Nelson Rodrigues enxergava o futebol: um território onde o herói de hoje pode acordar cadáver moral amanhã.

Caberá ao mineiro Felipe Fernandes de Lima comandar o duelo diante do Inter. Árbitro experiente, integrante do quadro ABPRO, auxiliado por bandeirinhas do Rio de Janeiro e de Alagoas. No VAR, outro mineiro. Como sempre acontece no futebol brasileiro, haverá tecnologia, protocolo, comunicação eletrônica e toda espécie de aparato moderno. Mas no fim das contas, continuará prevalecendo aquilo que nunca mudou: onze homens correndo atrás de uma bola e milhões de pessoas apostando nisso a própria sanidade emocional.

O Barradão, aliás, já começa a respirar outra atmosfera. O torcedor do Vitória vive num permanente exagero sentimental. Quando perde, acredita no apocalipse. Quando vence, já enxerga o céu aberto e os anjos vestidos de vermelho e preto. Depois da goleada sobre o ABC, a arquibancada voltou a acreditar em algo perigoso: felicidade.

E é justamente aí que mora o perigo. Jair Ventura parece saber disso. Por trás dos exercícios, das conversas e das movimentações táticas, existe uma preocupação silenciosa: impedir que o Vitória se apaixone demais pelo próprio reflexo.

Porque o futebol castiga os vaidosos com uma crueldade quase bíblica. E sábado, diante do Internacional, o Vitória descobrirá se a goleada sobre o ABC foi apenas uma noite gloriosa ou o início de uma transformação mais profunda. O Barradão aguarda. E o Barradão, quando sente cheiro de grandeza, torna-se um personagem mais perigoso que qualquer adversário.

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“No futebol, o maior inimigo da vitória não é a derrota anterior. É a euforia.”

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