O Leão transforma o Barradão num palco de insanidade e atropela o ABC em noite histórica pela semifinal do Nordestão.
O futebol, às vezes, abandona qualquer compromisso com a lógica e passa a agir como uma força descontrolada da natureza. Foi exatamente isso que aconteceu no Barradão. O Vitória começou ferido, sofreu dois golpes ainda no primeiro tempo, mas reagiu com violência emocional e técnica para esmagar o ABC por 6 a 2, numa semifinal que misturou drama, expulsões, delírio coletivo e uma goleada digna das noites mais brutais do futebol nordestino.
O ABC começou o jogo como quem desafia uma tempestade. Organizado, frio e sem qualquer temor diante do Barradão lotado, o time potiguar abriu o placar com Igor Bahia, após cruzamento de Wallyson. O silêncio que tomou conta do estádio foi curto, mas suficiente para lembrar ao torcedor rubro-negro que toda semifinal carrega algo de tragédia iminente.
O Vitória, no entanto, possui uma característica profundamente humana: sofre antes de reagir. Renato Kayzer empatou a partida após jogada construída por Erick, devolvendo oxigênio ao time Colossal. Mas o futebol, esse personagem cruel e debochado, ainda reservaria sofrimento. Wallyson, em cobrança de falta desviada, colocou novamente o ABC em vantagem e fez o nervosismo caminhar lentamente pelas arquibancadas.
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Foi então que Matheuzinho resolveu alterar completamente o rumo da noite. Arrancou pela defesa adversária com uma coragem quase irresponsável. Edson derrubou o camisa 10 dentro da área. O VAR chamou. O árbitro expulsou o defensor. E naquele instante começou o colapso emocional do ABC.
Renato Kayzer bateu o pênalti como quem assume sozinho o peso de uma multidão inteira. Gol. Empate. O Barradão explodiu numa catarse coletiva impossível de ser traduzida apenas em palavras.
O segundo tempo surgiu violento. O Vitória voltou para o gramado com fome. Jair Ventura colocou Renê em campo, e o atacante entrou como uma criatura destinada ao caos. Marcou de cabeça após cruzamento de Nathan Mendes. Depois apareceu novamente em velocidade para fazer mais um, após assistência precisa de Renato Kayzer.
O ABC já parecia emocionalmente destruído quando Geilson foi expulso após falta dura em Baralhas. Com dois homens a mais, o Vitória passou a controlar o jogo como um predador controla a presa cansada.
E então surgiu Osvaldo.
O veterano marcou de bicicleta. Uma bicicleta no meio de uma semifinal. Um gesto tão improvável que transformou o estádio num organismo em delírio absoluto. Não foi apenas um golaço. Foi um insulto artístico contra qualquer tentativa de normalidade.
Ainda houve tempo para mais um pênalti, sofrido por Renê. Osvaldo converteu. Sexto gol. Sexta pancada. O Barradão já não comemorava — rugia.
Renato Kayzer marcou duas vezes. Renê marcou duas vezes. Osvaldo marcou duas vezes. Três homens dividiram a autoria de uma das noites mais avassaladoras do Vitória nos últimos anos.
Golaço de Osvaldo
Quando o árbitro encerrou a partida, o ABC deixou o gramado carregando o peso da destruição. O Vitória, por sua vez, saiu do campo levando algo maior que uma vantagem na semifinal: saiu com a sensação de ter vivido uma dessas noites em que o futebol deixa de ser esporte e se transforma em literatura, tragédia e eternidade.



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