Técnico rubro-negro celebra o 6 a 2 sobre o ABC, elogia a reação do elenco após início turbulento e evita qualquer clima de euforia antes do duelo decisivo em Natal.
O futebol tem suas noites de histeria. E o Barradão viveu uma delas. O Vitória começou a partida como um homem assustado diante do espelho, sofreu dois golpes do ABC e por alguns minutos caminhou perigosamente sobre o fio da tragédia. Mas então aconteceu aquilo que separa os times comuns dos times possuídos por alguma espécie de febre coletiva: o Colossal perdeu o medo de si mesmo. Marcou seis vezes, transformou a semifinal numa carnificina esportiva e ouviu de Jair Ventura uma frase que carregava alívio e ameaça ao mesmo tempo: “Encaminhamos a vaga”.
O treinador apareceu diante dos jornalistas com a serenidade cansada dos homens que sobreviveram ao caos. Porque houve caos. O ABC abriu o placar, voltou a ficar na frente e obrigou o Barradão a encarar seus próprios fantasmas. Durante alguns minutos, o Vitória parecia um sujeito perdido dentro da própria casa, errando passes, tropeçando na ansiedade e olhando para o relógio como quem procura misericórdia.
COLETIVA DE IMPRENSA
Jair Ventura admitiu o sofrimento. Admitiu sem maquiagem, sem aquele cinismo burocrático típico das entrevistas de futebol. Disse que o time teve “alguns minutos ruins” e reconheceu a tensão natural de um mata-mata. Mas havia também, em sua voz, a convicção de quem acredita ter encontrado algo maior dentro do elenco: a capacidade de reagir quando tudo parece prestes a desmoronar.
“Depois a gente fez o que todo mundo esperava que o Vitória iria fazer e encaminhamos a vaga.”
CANAL VITÓRIA EM DESTAQUE
O técnico falou dos ajustes feitos no intervalo quase como um homem que protege um segredo religioso. Não quis revelar detalhes. Sorriu discretamente quando perguntado sobre o que disse aos jogadores no vestiário. “Se eu falar, vocês vão querer pegar meu lugar”, respondeu. Mas a verdade é que o segundo tempo entregou a resposta. O Vitória voltou diferente. Voltou feroz.
Renê entrou para atormentar a defesa potiguar. Renato Kayzer parecia jogar tomado por alguma urgência existencial. E Osvaldo, veterano ressuscitado por Jair Ventura, marcou dois gols — um deles de bicicleta — como se desafiasse a própria lógica da idade e do futebol moderno.
Jair fez questão de valorizar o ambiente interno do elenco. Disse que gerir quarenta jogadores exige mais do que conhecimento tático; exige humanidade. Falou como um sujeito que conhece o orgulho ferido dos reservas, o silêncio dos insatisfeitos e as pequenas guerras escondidas dentro de um vestiário.
“O treinador é sempre o vilão”, afirmou em determinado momento. E havia algo de profundamente verdadeiro nisso. No futebol brasileiro, o técnico vive permanentemente diante do paredão. Basta uma derrota para que se peça sua cabeça com a violência moral de um tribunal popular. Talvez por isso Jair tenha celebrado tanto a atuação de Osvaldo, um jogador que mal vinha sendo utilizado e reapareceu justamente na noite em que o Vitória precisava esmagar o adversário.
Mas nem a goleada permitiu relaxamento. Jair Ventura recusou qualquer discurso triunfalista. Disse que seria imperdoável encarar o jogo da volta como passeio turístico. Repetiu diversas vezes a palavra “seriedade”, como um padre insistindo no pecado diante dos fiéis.
“A maior forma de respeitar o ABC é buscar o gol o tempo todo.”
O treinador também demonstrou irritação quando perguntado sobre a possibilidade de Lucas Arcanjo cobrar o último pênalti da partida. Chamou a hipótese de “desrespeito”. E sua irritação fazia sentido. Há treinadores que gostam do espetáculo vazio. Jair, pelo menos naquela noite, parecia interessado apenas na disciplina brutal da vitória.
Agora o Vitória carrega para Natal uma vantagem gigantesca. Pode perder por até três gols de diferença e ainda assim estará na final da Copa do Nordeste. Mas há algo curioso nos grandes clubes: eles nunca conseguem viver em paz com a própria felicidade. A euforia de hoje já convive com o medo de amanhã.
Antes da viagem para encarar o ABC novamente, o Rubro-Negro recebe o Internacional pelo Campeonato Brasileiro. E talvez seja exatamente isso que mantém o futebol vivo: ele nunca permite descanso emocional. O torcedor mal termina de celebrar uma goleada histórica e já precisa começar a sofrer outra vez.
“O Barradão viu um time assustado transformar o próprio medo em massacre. E Jair Ventura saiu da noite como saem os sobreviventes: exausto, lúcido e perigosamente confiante.”


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