De volta à capital baiana ainda na madrugada, o Vitória transforma a euforia da goleada sobre o CRB em combustível para um novo desafio: o confronto contra o Cruzeiro, em Belo Horizonte, pelo Campeonato Brasileiro.
O Vitória voltou para casa como voltam os sobreviventes de uma batalha: exaustos, molhados — e, sobretudo, vivos. A madrugada chuvosa de Salvador parecia lavar não apenas o corpo dos jogadores, mas também os resquícios de dúvida que ainda pairavam sobre o time.
Porque o futebol, convenhamos, é uma ironia constante. No sábado, em Maceió, o mesmo Vitória que dias antes tropeçava em si mesmo resolveu, subitamente, ser grandioso. Fez quatro gols. Quatro. Como quem escreve um manifesto contra a própria insegurança.
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O adversário, o CRB, não era qualquer figurante. Chegava invicto há nove jogos em casa, embalado por sua gente, seguro de si. E foi justamente aí que o Vitória resolveu contrariar a lógica — porque o futebol, quando quer ser trágico, também sabe ser cruel com quem acredita demais.
Jair Ventura, com a serenidade dos que sabem que o caos também pode ser planejado, insistiu: havia método. Havia cálculo. A escalação alternativa contra o Botafogo-PB, tão criticada, agora se revelava quase profética.
“Mostra a importância do planejamento”, disse o treinador. E disse como quem não pede aplausos — apenas constata.
Ainda assim, o futebol cobra. Sempre cobra. Renato Kayzer saiu com incômodo. Camutanga também. Como se o destino lembrasse ao Vitória que toda glória traz, escondida, uma pequena fatura emocional.
Mas houve grandeza. E como houve.
Erick jogou como quem escreve poesia com a bola. Participou, decidiu, apareceu. Tarzia, enfim, marcou — e ao marcar, libertou-se. Porque há gols que são apenas números. E há gols que são confissões íntimas.
E então, Lucas Arcanjo.
Ah, Lucas Arcanjo.
Não foi goleiro. Foi personagem. Defendeu como quem nega o inevitável. Como quem desafia o destino com as próprias mãos. Em um jogo de ataques e espaços, foi ele o último argumento do Vitória contra o caos.
“A importância de ter um goleiro como ele”, resumiu Jair. E, pela primeira vez, a frase pareceu pequena demais para o que se viu.
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Agora, porém, não há tempo para contemplação. O futebol não permite nostalgia.
O Vitória treina nesta segunda-feira, volta a campo na terça — e viaja. Porque na quarta-feira há um novo capítulo, em Belo Horizonte, contra o Cruzeiro. Um adversário pesado, desses que não aceitam distrações.
No meio disso tudo, surge Renê. Nome novo, expectativa antiga. Já regularizado, chega como promessa — e, no futebol, promessas são sempre perigosas. Ou salvam, ou condenam.
O Vitória, portanto, vive esse instante raro: entre o que foi e o que ainda pode ser.
Entre a madrugada chuvosa de Salvador e a noite que o espera em Minas.
Entre o alívio da vitória e a ameaça do próximo desafio.
Porque, no fim, o futebol é isso: uma sucessão de recomeços disfarçados de continuidade.


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