O Vitória voltou. E, ao voltar, revelou mais do que condicionamento físico — revelou sua própria inquietação. Porque há reapresentações burocráticas. E há aquelas em que cada passo no gramado soa como uma pergunta sem resposta.
Foi no CT Manoel Pontes Tanajura, numa segunda-feira que antecede um feriado — como se o calendário tentasse oferecer descanso a quem não pode descansar — que o elenco rubro-negro iniciou sua preparação para o duelo contra o Flamengo pela Copa do Brasil.
A folga de domingo terminou. E com ela terminou também a ilusão de tranquilidade. Porque o futebol não permite pausas emocionais. Ele cobra. Sempre cobra.
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O time descansa no domingo — mas a dúvida não tira folga.
Sob o comando de Jair Ventura, o primeiro dos dois treinamentos foi realizado com método, disciplina e uma certa obsessão silenciosa. Tudo muito organizado. Tudo muito calculado. E, ainda assim, pairava no ar a sensação de que algo escapava.
Porque o treino moderno ensina a ocupar espaço, a girar a bola, a pressionar — mas não ensina a resolver o imponderável. E o futebol, como já se sabe, vive justamente do imponderável.
Os jogadores foram divididos em dois grupos. Os titulares do empate contra o Corinthians — um 0 a 0 que disse muito sem dizer nada — ficaram na recuperação física. Academia, massagem, crioterapia. O corpo sendo tratado como máquina.
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Mas há dores que não se curam com gelo.
No campo Bebeto Gama, a bola rolou para os demais. Aquecimento, ativação, transição em superioridade numérica. Dois contra um. Sempre alguém em vantagem — ao menos no treino.
Depois, veio o trabalho que tenta domesticar o caos: movimentações rápidas em espaços vazios. Jogadores buscando as costas do adversário, como quem tenta encontrar um caminho onde aparentemente não há.
É bonito. É técnico. É moderno. Mas o jogo — o jogo de verdade — nem sempre respeita a geometria.
O treino desenha linhas retas. O jogo escreve em curvas.
No coletivo final, onze contra onze. Campo inteiro. Liberdade controlada. E o placar? Zero a zero.
Sempre o zero. Esse número que, no futebol, pode significar organização — ou ausência. Pode ser virtude. Pode ser sintoma.
E o Vitória, neste momento, parece viver exatamente nessa fronteira: entre o controle e a esterilidade.
Há empates que são estratégia. E há empates que são confissão.
A próxima etapa já tem hora marcada: terça-feira pela manhã, o último treino antes da viagem ao Rio de Janeiro. À tarde, o deslocamento. E, no horizonte, o Maracanã.
O Maracanã não é apenas um estádio. É um púlpito. E todo time que entra ali leva consigo suas virtudes — e seus pecados.
O Vitória chegará preparado. Treinado. Organizado. Mas isso basta?
Porque, no fundo, a pergunta que permanece não está no esquema tático nem na carga física. Está em algo mais incômodo:
este time joga para cumprir o roteiro — ou para mudar a própria história?
O treino termina. O silêncio volta. E o futebol, como sempre, adia suas respostas.
Porque há times que treinam para jogar. E há times que treinam para descobrir quem são.
Fonte: EC Vitória
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