O Ba-Vi 505, que poderia ser um ensaio de confiança antes do Campeonato Brasileiro, transformou-se em advertência pública: o Vitória perdeu por 1 a 0 para um Bahia descaracterizado e saiu do clássico carregando dúvidas que não cabem em tabela.
Se o futebol fosse um melodrama, jamais aceitaria outra definição — o Vitória entrou em cena com figurino de gala e saiu de campo como um personagem secundário, atropelado pela própria incapacidade de criar. Com força máxima, diante de um Bahia que poupou seus protagonistas, o Rubro-Negro produziu pouco, sofreu muito e foi derrotado no que mais importa: a alma do jogo.
Jair Ventura lançou mão do que tinha de melhor, exceção feita ao zagueiro Edu, entregue ao infortúnio das lesões. Ainda assim, a superioridade esperada nunca apareceu. O Vitória teve mais posse de bola na etapa inicial, mas tratou a iniciativa como um fardo. Preferiu os lados do campo, abusou dos cruzamentos — muitos deles desesperados — e encontrou em Erick suas únicas fagulhas ofensivas, ambas desperdiçadas com imprecisão quase trágica.
Defensivamente, o cenário não foi menos inquietante. O Bahia, mesmo em versão econômica, encontrou espaços em velocidade e ameaçou pelo alto. Em uma dessas investidas, Dell acertou o travessão de Gabriel, num aviso que soou como presságio.
O segundo tempo manteve o roteiro previsível. O Vitória seguiu monotemático, previsível, refém do chamado “chuveirinho”. Renato Kayzer e Ramon até tentaram, mas Ronaldo assistiu aos lances sem ser verdadeiramente desafiado. O Bahia, paciente, aguardava o erro alheio como quem espera o instante exato para puxar a cadeira.
Ele veio aos 15 minutos. Ao sair de maneira precipitada para pressionar Rodrigo Nestor, Mateus Silva abriu o espaço fatal. Iago Borduchi avançou sem ser incomodado e rolou para Dell, que, com frieza adulta, marcou o gol do clássico e escreveu seu nome no Ba-Vi como quem assina uma sentença.
O desastre poderia ter sido maior. Pouco depois, Ramon dividiu com Erick Pulga dentro da área em lance que flertou perigosamente com o pênalti. Nos minutos finais, apesar das alterações de Jair Ventura, quem voltou a rondar o gol adversário foi o Bahia, senhor do tempo e do nervosismo alheio.
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Ao fim da partida, falou-se em “falta de capricho”. O poeta louco sorriria. Capricho é palavra pequena demais para explicar um time que, diante de um rival incompleto, foi anulado, previsível e incapaz de reinventar-se. Faltaram ideias, faltou imaginação e, sobretudo, faltou indignação.
O Vitória atravessa o primeiro teste de fogo de 2026 com a incômoda sensação de que ainda vive em 2025 — no futebol e no discurso. Para quem sonha com uma Série A sem sobressaltos, o clássico deixou um aviso cruel: o futuro não perdoa quem insiste em repetir os mesmos pecados.



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