O Vitória poderia ter transformado o Botafogo em vítima de uma goleada. Não transformou. Preferiu o caminho mais tortuoso, aquele que parece ter sido desenhado especialmente para o coração do torcedor rubro-negro. Criou, perdeu, insistiu, desperdiçou um verdadeiro caminhão de oportunidades e, no fim, precisou se agarrar à própria defesa para comemorar uma vitória por 1 a 0, pela 23ª rodada do Campeonato Brasileiro.
O gol de Matheuzinho, de pênalti, ainda no primeiro tempo, acabou sendo suficiente. Suficiente para interromper uma sequência de quatro partidas sem vitória. Suficiente para devolver ao Vitória os três pontos. E, sobretudo, suficiente para lembrar que, no Barradão, o time Colossal sabe transformar sofrimento em resultado.
O placar, porém, conta apenas uma parte da história. A outra está escondida nas chances desperdiçadas, nos ataques que morreram antes do último passe e naquele velho pecado que acompanha o Vitória nesta temporada: a dificuldade de colocar a bola para dentro.
Um Vitória diferente para começar
Jair Ventura precisou mexer no desenho da equipe. As ausências de Baralhas e Caíque Gonçalves obrigaram o treinador a procurar outra solução. O Vitória entrou em campo com uma postura mais agressiva e tentou sufocar a saída de bola do Botafogo com quatro jogadores: Tarzia, Matheuzinho, Renê e Erick.
A ideia tinha coragem. E também tinha um preço. Ao avançar tanta gente, o Vitória deixava espaços no meio-campo. O Botafogo percebeu e, nos primeiros 15 minutos, encontrou terreno para jogar. Foi nesse período que Lucas Arcanjo apareceu pela primeira vez como personagem importante da noite.
A escalação inicial do Vitória teve Lucas Arcanjo; Brítez, Cacá, Luan Cândido e Ramon; Zé Vitor, Emmanuel Martínez e Matheuzinho; Tarzia, Erick e Renê.
Leia Mais
Vitória em DestaqueVitória vence o Botafogo no Barradão
Confira os detalhes da vitória do Rubro-Negro diante do Botafogo, em mais uma noite de emoção no Barradão.
Ler notíciaNeilton revela torcida pelo Vitória
Ex-jogador fala sobre sua relação com o Rubro-Negro e revela o carinho que mantém pelo clube baiano.
Ler notíciaVitória reencontra o Vasco nas quartas da Copa do Brasil
Rubro-Negro terá novamente o Vasco pela frente em busca de uma vaga na semifinal da Copa do Brasil.
Ler notíciaQuando o gol apareceu, o jogo mudou
O Vitória tinha dificuldade para sair jogando e não conseguia permanecer muito tempo com a bola. Mas futebol, às vezes, é uma dessas coisas inexplicáveis que o torcedor aprende a aceitar. Quando a equipe parecia presa, apareceu justamente a dupla de ataque que vinha dando sinais de perigo.
Renê participou da construção da jogada e Erick entrou na área. Huguinho derrubou o atacante aos 23 minutos. Pênalti.
Matheuzinho pegou a bola. Não houve drama na cobrança. Não houve suspense digno de novela. O meia bateu firme e não deu chance para Warleson. Vitória na frente.
E o gol pareceu acordar ainda mais o Rubro-Negro. O Botafogo ficou exposto, enquanto o Vitória avançava em bloco. Aos 29 minutos, Matheuzinho voltou a balançar as redes, mas a arbitragem marcou impedimento.
Era o começo de uma noite que poderia ter sido muito mais tranquila.
O Vitória diante do velho problema
O time encontrou espaços e, em vários momentos, atacou com superioridade numérica. O problema estava justamente onde o problema costuma aparecer: no último toque.
O Vitória chegou, chegou de novo e chegou mais uma vez. Mas a bola parecia ter desenvolvido uma espécie de antipatia pela rede. O Rubro-Negro terminou a partida com 18 finalizações, mas somente quatro acertaram o alvo.
Não é uma simples estatística. É o retrato de uma equipe que continua convivendo com a dificuldade de transformar domínio em gols. O Vitória tem o pior ataque do campeonato, com apenas 23 gols em 23 rodadas, número igual ao de Chapecoense, Vasco e Internacional.
No Barradão, entretanto, havia uma diferença: o Vitória tinha a defesa.
CANAL VITÓRIA EM DESTAQUE
Na segunda etapa, o sofrimento ganhou espaço
O segundo tempo começou com o Vitória mais ousado. A equipe voltou a ameaçar Warleson e teve uma oportunidade que parecia impossível de desperdiçar.
Aos 14 minutos, Renê recebeu uma chance na pequena área. O goleiro do Botafogo já estava batido. Era a bola pedindo para entrar. Mas ela saiu.
E foi aí que o jogo começou a adquirir aquele contorno típico das partidas do Vitória: o placar pequeno, as oportunidades desperdiçadas e o torcedor olhando para o relógio como quem olha para uma sentença.
O Rubro-Negro continuou chegando. Continuou errando. Um caminhão de gols ficou pelo caminho.
A defesa segurou o que o ataque desperdiçou
Se o ataque não conseguiu matar o jogo, a defesa tratou de impedir que o Botafogo ressuscitasse.
O retorno de Luan Cândido e Cacá deu maior segurança ao sistema defensivo. A dupla ofereceu poucos espaços e ajudou a manter o Botafogo longe da área na maior parte do segundo tempo.
Os números do Vitória como mandante explicam parte desse fenômeno. Em 11 partidas no Barradão pela Série A, a equipe sofreu apenas sete gols. Quatro deles aconteceram justamente contra o Palmeiras, em uma partida marcada pelas expulsões de seus dois zagueiros ainda no primeiro tempo.
Quando a defesa foi superada, Lucas Arcanjo apareceu.
O goleiro fez intervenções importantes e se tornou um dos responsáveis diretos pela manutenção da vantagem. E houve um lance em particular que resumiu a tensão do jogo.
Aos 37 minutos do segundo tempo, Ferraresi cruzou pela direita e Júnior Santos apareceu inteiro para cabecear. A bola parecia destinada ao empate. Arcanjo, porém, reagiu rapidamente e fez uma grande defesa.
Era o Vitória dizendo, à sua maneira, que naquela noite a bola não entraria.
PAREDÃO DO LEÃO
Jair mexe, reforça a marcação e espera o relógio
Jair Ventura percebeu que era necessário proteger o resultado. Ao longo do segundo tempo, o treinador promoveu cinco mudanças para aumentar a força física e a capacidade de marcação da equipe.
- Walace entrou no lugar de Martínez aos 13 minutos;
- Jamerson substituiu Ramon aos 13 minutos;
- Renato Kayzer entrou na vaga de Renê aos 18 minutos;
- Pochettino substituiu Tarzia aos 19 minutos;
- Marinho entrou no lugar de Matheuzinho aos 32 minutos.
O Vitória passou a jogar com a inteligência de quem sabe que, em determinadas noites, não é preciso vencer bonito. É preciso vencer.
Botafogo tenta reagir, mas não encontra o empate
O Botafogo não fez uma partida desastrosa. Criou suas oportunidades e, em alguns momentos, conseguiu pressionar. Mas sentiu o golpe do gol sofrido e encontrou dificuldades para transformar posse e cruzamentos em perigo real.
Arthur Cabral e Júnior Santos tiveram as melhores oportunidades pelo time carioca. Em duas cabeçadas, estiveram próximos de mudar a história da partida.
Não mudaram.
Depois da goleada por 6 a 1 sofrida diante do Cienciano, pela Sul-Americana, a pressão sobre Franclim Carvalho aumentou. A derrota no Barradão ainda fez o Botafogo perder duas posições na classificação.
O time carioca termina a rodada em 11º lugar, com 30 pontos.
Final quente no Barradão
Como se o sofrimento dos 90 minutos não bastasse, o jogo ainda terminou com confusão.
Jogadores e membros das comissões técnicas dos dois clubes trocaram empurrões após o apito final. Arthur Cabral acabou expulso depois de discutir com Jair Ventura e fazer um gesto com a mão na boca.
Era a última cena de uma partida que teve pênalti, chances perdidas, defesas importantes, tensão e uma vitória que demorou a ser comemorada.
O Barradão continua sendo território rubro-negro
O Vitória terminou a noite com oito vitórias, um empate e apenas duas derrotas em 11 jogos como mandante nesta Série A. São 75,7% de aproveitamento diante de sua torcida.
A vitória sobre o Botafogo também fez o Rubro-Negro chegar aos 29 pontos e ocupar a 12ª posição na tabela. Mais importante do que a colocação, entretanto, foi interromper a sequência de três derrotas consecutivas para Remo, Palmeiras e Flamengo.
O Vitória ainda precisa melhorar. Precisa, principalmente, aprender a transformar as chances em gols. Mas, nesta noite, encontrou uma fórmula que funcionou: marcou uma vez, desperdiçou várias outras e fechou a porta atrás de si.
No futebol, há noites em que o espetáculo é uma goleada. Há outras em que o espetáculo é simplesmente sobreviver.
No Barradão, neste domingo, o Vitória fez as duas coisas pela metade: criou para golear e sofreu para vencer. No fim, porém, ficou com aquilo que realmente importava.
Os três pontos.
CLASSIFICAÇÃO DO BRASILEIRÃO
Próximo compromisso
O Vitória terá agora mais uma oportunidade de confirmar sua força dentro de casa. No próximo domingo, às 16h, pelo horário de Brasília, o Rubro-Negro recebe o Bahia pela 24ª rodada do Campeonato Brasileiro.
E, se depender do Barradão, a história promete novamente ter drama. Porque, para o Vitória, aparentemente, três pontos nunca vêm sozinhos. Eles costumam trazer junto uma dose generosa de sofrimento.



0 Comentários