No Barradão, o Vitória tenta transformar a semifinal contra o ABC em mais uma dessas noites em que o futebol deixa de ser esporte e vira destino, superstição e febre coletiva.
Alguns jogos começam antes do apito. Este já começou no coração do torcedor. Começou quando o sujeito fechou o rádio, encarou o teto da sala e percebeu que uma semifinal da Copa do Nordeste nunca é apenas uma semifinal. É uma espécie de acerto de contas com a própria memória.
Às 21 horas desta quarta-feira, Vitória e ABC entram em campo no Barradão para o primeiro duelo da semifinal do Nordestão. E o que parece apenas futebol talvez seja outra coisa: uma batalha de nervos, fantasmas e cicatrizes antigas.
O Vitória chega ferido pela derrota diante do Bragantino, mas sustentado por algo que o Barradão conhece como poucos: a capacidade de ressuscitar diante do próprio povo. Foi naquele mesmo estádio que o Rubro-Negro derrubou o Flamengo dias atrás, numa dessas noites em que a arquibancada parece empurrar o mundo com as próprias mãos.
CANAL VITÓRIA EM DESTAQUE
O time de Jair Ventura não perde em casa há sete partidas. São seis triunfos e um empate. O Barradão virou trincheira, confessionário e ameaça. Há estádio que recebe partidas. O Barradão recebe estados de espírito.
Do outro lado, vem um ABC que carrega dez jogos de invencibilidade e uma coragem quase insolente. O técnico Waguinho Dias avisou que não mudará sua postura. E talvez esteja certo. Certos homens entram no abismo olhando diretamente para ele.
Jair Ventura, por sua vez, reencontra peças fundamentais. Nathan Mendes, Ramon e Luan Cândido retornam ao time após ausência contra o Bragantino. Erick, mesmo carregando dores, deve jogar. E o torcedor sabe: atacante decisivo não sente dor; sente presságio.
ESTATÍSTICA DE VITÓRIA X ABC
Provável escalação do Vitória
Lucas Arcanjo; Nathan Mendes, Cacá, Luan Cândido e Ramon; Gabriel Baralhas, Zé Vitor e Martínez; Erick, Matheuzinho e Renê.
Há qualquer coisa de dramático nesse time. Lucas Arcanjo parece defender como quem protege um segredo de família. Baralhas combate no meio-campo com a melancolia dos homens que sabem que o futebol não perdoa distrações. E Erick carrega nos pés aquela irresponsabilidade divina dos grandes atacantes.
Desfalques do Vitória
- Anderson Pato;
- Pedro Henrique;
- Mateus Silva;
- Riccieli;
- Camutanga;
- Edu;
- Rúben Ismael;
- Dudu.
Todos seguem entregues ao departamento médico. O futebol também é isso: uma coleção de ausências.
Provável escalação do ABC
Matheus Alves; Lucas Marques, Edson, Wellington Carvalho e Dudu Mandai; Jonathan, Geilson e Luiz Fernando; João Pedro, Wallyson e Igor Bahia.
O ABC desembarca em Salvador sem medo. E talvez o perigo maior seja justamente esse. Times perigosos não são os que tremem. São os que acreditam.
No entanto, existe algo no Barradão que pesa sobre adversários como uma culpa antiga. A arquibancada rubro-negra não canta: acusa. Não empurra: condena. E quando a noite engrossa, o estádio inteiro parece se transformar numa criatura viva.
O torcedor do Vitória não quer apenas vencer. Quer reviver. Quer outra noite para guardar como quem guarda uma fotografia amassada dentro da carteira.
Arbitragem
- Árbitro: Léo Simão Holanda (CE);
- Assistente 1: Eleutério Felipe Marques Júnior (CE);
- Assistente 2: Zaqueu Eleutério Linhares (CE);
- Quarto árbitro: Michael Vinícius Santos Freitas (SE);
- VAR: Adriano Barros Carneiro (MA).
A bola rola às 21 horas. Mas certas partidas começam muito antes. Começam no silêncio da cidade, na superstição do torcedor e naquele medo quase infantil de sofrer outra vez.
Porque semifinal não se joga apenas com chuteiras. Joga-se com memória.





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