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Vitória tenta preservar hegemonia histórica contra o ABC em noite decisiva no Barradão

Nesta quarta-feira, o Barradão recebe mais uma vez o ABC, enquanto o Vitória tenta defender não apenas uma invencibilidade, mas a própria memória de sua grandeza nordestina.

Baralhas, Kayzer, Renê e Ramon

O Rubro-Negro abre a semifinal da Copa do Nordeste diante do ABC, às 21h, cercado por números favoráveis, confiança renovada e uma velha obsessão: voltar a disputar uma final que lhe escapa desde 2010. Do outro lado estará um adversário em boa fase, embalado por dez jogos sem derrota e disposto a desafiar a fortaleza rubro-negra em Salvador.

O futebol, às vezes, tem a delicadeza cruel de um romance russo. Ele devolve velhos personagens ao palco exatamente quando o passado parece enterrado. E o ABC reaparece diante do Vitória como uma lembrança antiga, dessas que permanecem escondidas em alguma gaveta escura da memória do torcedor.

Faz vinte e seis anos que o clube potiguar não vence o Vitória dentro de Salvador. Vinte e seis anos. É tempo suficiente para um menino virar homem, para um ídolo envelhecer e para uma arquibancada inteira aprender a sofrer de maneiras diferentes. A última derrota rubro-negra como mandante diante do ABC aconteceu em abril de 2000, numa eliminação amarga da Copa do Brasil que ainda ecoa como uma cicatriz distante.

Desde então, o Barradão transformou-se numa espécie de tribunal. E quem atravessa seus portões à noite sente imediatamente a pressão de um estádio que não grita: ameaça. O Vitória aprendeu a sobreviver ali como sobrevivem os clubes grandes — misturando raça, superstição e um certo desespero coletivo que move multidões.

Números do Vitória contra o ABC:
  • Última derrota em casa: 12 de abril de 2000;
  • Invencibilidade atual: 10 partidas;
  • Último grande capítulo: título da Copa do Nordeste de 2010 sobre o próprio ABC;
  • Sequência atual no Barradão em 2026: sete jogos sem perder.

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Mas o futebol não vive apenas de estatísticas. Vive também de estados de espírito. E o Vitória atravessa um daqueles momentos em que a torcida volta a acreditar em milagres modestos. A classificação sobre o Flamengo na Copa do Brasil devolveu ao clube algo que parecia perdido há meses: confiança.

O Barradão reencontrou sua alma. E nela existe um personagem central chamado Erick. O atacante tornou-se o homem das urgências rubro-negras. São nove gols e nove assistências na temporada. Quando ele acelera pelo campo, o estádio inteiro parece respirar ao mesmo tempo. Ainda sente dores após a partida contra o Bragantino, mas deve jogar. E talvez seja justamente isso que transforme certos atletas em heróis populares: eles entram em campo mesmo quebrados.

Jair Ventura sabe que a semifinal não será simples. O ABC chega invicto há dez partidas e carrega consigo a leveza perigosa de quem não tem medo do ambiente. Há times que entram no Barradão derrotados antes do apito inicial. O ABC, aparentemente, não pertence a essa categoria.

E então chega a noite. A semifinal. A fumaça dos sinalizadores. O concreto tremendo sob os pés da arquibancada. O velho ritual do futebol nordestino reaparece como uma tragédia apaixonada: homens correndo atrás da bola enquanto milhares tentam salvar a própria semana através de uma vitória.

Porque o torcedor do Vitória conhece essa verdade cruel: o futebol nunca é apenas futebol. Às vezes, ele é vingança. Outras vezes, redenção. E há noites em que ele parece ser apenas uma tentativa desesperada de permanecer vivo.

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