Jair Ventura sabe que o futebol possui suas ironias cruéis. Num domingo, a equipe parecia mutilada diante do Fluminense. Faltavam peças, pernas e principalmente o brilho de seus protagonistas. Mas quinta-feira se aproxima como um trovão anunciado, trazendo consigo a possibilidade do retorno de três titulares absolutos: Matheuzinho, Erick e Cacá.
O treinador rubro-negro falou após o empate no Rio com a serenidade de quem tenta esconder a própria ansiedade. “Espero que o Cacá tenha condição de jogo. Matheuzinho e Erick voltam de suspensão”, disse. E bastou a frase para incendiar novamente a esperança da torcida.
Porque Erick, neste Vitória de 2026, não é apenas atacante. É vertigem. É faca desembainhada em velocidade máxima. O homem lidera o clube em gols e assistências. Oito vezes artilheiro. Nove vezes garçom. Um ponta que Jair Ventura descreveu, sem medo do exagero, como “o mais importante do Brasil na atualidade”.
Sem ele, o Vitória parece perder algo invisível: a brutalidade do contra-ataque, o susto repentino, a sensação de que qualquer bola pode virar sentença. Contra o Fluminense, o treinador apostou em dois centroavantes, Renê e Renato Kayzer, numa tentativa quase desesperada de preencher o vazio deixado pela ausência de Erick e Matheuzinho.
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Já Matheuzinho representa outra espécie de perigo. Não o relâmpago. Mas o pensamento. O meia que organiza o caos, costura os espaços e produz o instante decisivo. Sete participações diretas em gols no ano transformaram seu retorno em notícia tão importante quanto qualquer contratação milionária.
E há ainda Cacá. O zagueiro que chegou emprestado pelo Corinthians e rapidamente tomou posse da defesa rubro-negra como quem reivindica território. Sem ele, Jair precisou lançar Edenilson, garoto da base, ao fogo de um jogo pesado no Maracanã.
O departamento médico e suas sombras
Mas nem tudo são retornos. O departamento médico do Vitória continua funcionando como uma enfermaria de guerra. Há homens tentando reaprender a correr, outros reaprendendo simplesmente a suportar a dor.
Claudinho, ausente desde outubro do ano passado após fraturar o tornozelo, vive fase de transição física e aparece como a esperança mais próxima de retorno. Já Anderson Pato tornou-se a nova baixa da temporada. O atacante passou por cirurgia no menisco do joelho direito e só deve voltar depois da Copa do Mundo.
Jair Ventura atualizou a situação clínica do elenco como um médico que lê boletins de um hospital lotado:
- Claudinho: transição após fratura no tornozelo;
- Dudu: tratamento após cirurgia lombar;
- Edu: recuperação de reconstrução do tendão calcâneo;
- Mateus Silva: lesão na coxa esquerda;
- Camutanga: cirurgia no pé, fora da temporada;
- Riccieli: transição após lesão na panturrilha;
- Pedro Henrique: recuperação de lesão no adutor;
- Anderson Pato: cirurgia no menisco do joelho;
- Gabriel: tendinite no joelho;
- Rúben Ismael: recuperação de cirurgia no joelho.
O cenário é brutal. O Flamengo chega com vantagem. O Vitória chega com urgência. Para sobreviver na Copa do Brasil, o Rubro-Negro baiano precisa vencer por um gol para levar a decisão aos pênaltis ou vencer por dois gols de diferença para avançar diretamente.
E talvez seja exatamente aí que mora o perigo para os cariocas. Porque o Barradão, quando sente cheiro de desespero, costuma virar personagem. As arquibancadas deixam de ser concreto. Transformam-se em garganta, fumaça, pressão e vertigem.
Quinta-feira não será apenas futebol. Será uma dessas noites em que o Vitória tentará arrancar do impossível uma classificação histórica. E o impossível, no Barradão, às vezes atende pelo nome de milagre.


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