O Vitória chegou aos 127 anos como chegam os velhos gladiadores: ferido, desconfiado da própria felicidade, mas perigosamente vivo. Alguns clubes fazem aniversário com bolo, vela e discurso burocrático. O Vitória, não. O Vitória comemora sua existência à beira de um abismo elétrico, desses que fazem o coração do torcedor bater como tambor de guerra. O Flamengo espera no Barradão. E Salvador inteira parece caminhar para uma noite de festa.
O torcedor rubro-negro acordou nesta quarta-feira com aquela sensação antiga que o futebol devolve de tempos em tempos: a sensação de que alguma coisa grandiosa pode acontecer. Não é apenas a sequência de quatro jogos sem derrota. Não é apenas a 10ª colocação na Série A. Não é somente a semifinal da Copa do Nordeste. O que existe é algo mais profundo, quase espiritual.
Existe a impressão de que o Vitória voltou a respirar como clube grande. E isso, para um torcedor acostumado às ruínas recentes, já parece uma revolução sentimental.
Na véspera da decisão contra o Flamengo pela quinta fase da Copa do Brasil, o Barradão virou um altar de ansiedade coletiva. O Vitória perdeu por 2 a 1 no Maracanã, mas a derrota não matou ninguém. Pelo contrário. Deixou aberta a porta da tragédia gloriosa, e o futebol brasileiro sempre amou as tragédias gloriosas.
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O Rubro-Negro Colossal precisa vencer por um gol para levar a disputa aos pênaltis. Se vencer por dois, elimina o Flamengo no tempo normal. E o torcedor acredita. Ah, como acredita. O torcedor do Vitória é um personagem peculiar: ele sofre antes, durante e depois, mas nunca abandona a própria ilusão.
Talvez porque o clube tenha sido construído exatamente assim: entre sobrevivências, quedas, retornos e cicatrizes.
Um clube que atravessou o século
Fundado em 13 de maio de 1899 como Club de Cricket Victoria, o Leão nasceu antes mesmo que o futebol ocupasse definitivamente o coração brasileiro. Havia bondes nas ruas, paletós de linho e uma Salvador ainda presa ao passado colonial. O Vitória surgiu como um clube elegante. Décadas depois, transformou-se numa paixão popular.
Em 1908 veio o primeiro título baiano. Em 1946, nasceu oficialmente o nome Esporte Clube Vitória. Depois, o Barradão ergueu-se como fortaleza de concreto e superstição em 1986. E ali, naquele estádio cercado de suor, desespero e fumaça rubro-negra, o clube escreveu parte de sua identidade.
Nos anos 90, a Fábrica de Talentos colocou o Vitória entre os maiores celeiros do futebol brasileiro. Era um tempo em que o clube produzia jogadores como quem produz destino. Vieram títulos, finais e respeito nacional.
Mas o futebol também possui crueldades particulares. O Vitória experimentou rebaixamentos, crises políticas e o inferno da Série C. Houve temporadas em que o Barradão parecia um castelo abandonado pela própria esperança.
Ainda assim, o clube resistiu.
Em 2023, aos 124 anos, o Rubro-Negro conquistou o primeiro título nacional de sua história ao vencer a Série B. A estrela dourada acima do escudo não representa apenas uma taça. Representa sobrevivência.
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O presente devolve o orgulho
Hoje, o Vitória reencontra algo que parecia perdido: protagonismo. O clube voltou a frequentar as primeiras páginas da Série A, voltou a disputar mata-matas importantes e voltou a fazer o torcedor acreditar que o futuro pode ser menos cruel.
Há também a perspectiva da Arena Barradão, projeto bilionário aprovado pelo Conselho Deliberativo e que promete transformar o estádio num complexo moderno, com rooftop, camarotes, restaurantes panorâmicos e capacidade ampliada para mais de 40 mil pessoas.
Mas o torcedor, neste instante, não quer saber de concreto nem de arquitetura futurista. O torcedor quer quinta-feira. Quer o Flamengo. Quer a fumaça subindo das arquibancadas. Quer o velho Barradão rugindo como um animal ferido.
Porque existem noites em que um clube não joga apenas futebol. Existem noites em que um clube tenta justificar a própria existência.
E talvez seja exatamente isso que o Vitória fará em seus 127 anos: olhar para o impossível e desafiá-lo de frente.




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