Contra o Ceará, Rubro-Negro revive cicatrizes históricas e aposta na força de casa para reescrever o destino na Copa do Nordeste
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| Matheuzinho perdeu espaço no Vitória | Foto: Victor Ferreira/EC Vitória |
Alguns jogos não se jogam — se exorcizam. E o duelo entre Vitória e Ceará é exatamente isso: uma sessão pública de fantasmas. O Rubro-Negro entra em campo nesta quarta-feira não apenas para disputar uma vaga, mas para enfrentar um passado que insiste em não morrer.
Porque o torcedor sabe — e o futebol também sabe — que há derrotas que não acabam no apito final. Elas permanecem, cochicham, cutucam a memória. O Ceará, este adversário quase mitológico, já eliminou o Leão em cinco oportunidades na Copa do Nordeste. Cinco vezes. Não é estatística — é obsessão.
O retrospecto não é apenas desfavorável — é quase cruel. Em seis confrontos eliminatórios, o Vozão avançou em cinco. 2013, 2014, 2015, 2020 e 2021: anos que, para o torcedor rubro-negro, soam como capítulos de uma tragédia repetida. O Ceará virou uma espécie de destino indigesto, desses que aparecem quando tudo parece dar certo.
E como esquecer 2013? O Vitória venceu fora, construiu vantagem, sorriu. Mas o futebol — esse canalha — resolveu zombar. No Barradão, veio o 4 a 1. Um resultado que não foi apenas derrota: foi um colapso emocional coletivo. Desde então, cada reencontro carrega o peso desse dia.
Nos anos seguintes, o roteiro mudou pouco. Em 2014, nova pancada. Em 2015, a eliminação veio com requintes de ironia: dois empates bastaram para o Ceará avançar. Em 2020, a pandemia esvaziou arquibancadas, mas não o sofrimento. Em 2021, mais uma despedida sem glória.
O curioso — e aqui mora o paradoxo — é que o algoz também pode ser inspiração. Porque foi contra o Ceará, em 1997, que o Vitória escreveu um de seus capítulos mais heroicos. Um 3 a 3 fora, um 3 a 2 em casa, dois gols de Bebeto e uma classificação que ecoa até hoje. Ou seja: o mesmo adversário que feriu, também já curou.
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Agora, o cenário é outro — ou talvez seja o mesmo, com nova maquiagem. O jogo é único, sem volta, sem amanhã. Empate leva aos pênaltis, esse tribunal imprevisível onde heróis viram vilões em questão de segundos.
O Barradão, desta vez, surge como personagem principal. Mais do que estádio, será cúmplice. A boa campanha recente no Campeonato Brasileiro devolveu ao time algo raro: confiança. E confiança, no futebol, é meio caminho andado — ou meio abismo evitado.
O Vitória chega melhor, mais sólido, mais consciente. Mas o futebol não respeita coerência. Ele gosta mesmo é do absurdo. E o Ceará, como já mostrou tantas vezes, sabe muito bem habitar esse território.
No fim, o que estará em jogo não é apenas a classificação. É a narrativa. É o direito de reescrever a própria história. Porque, como diria o poeta louco, “o pior cego é aquele que vê apenas o placar”.
Nesta quarta-feira, às 21h30, o Vitória não entra em campo apenas para vencer. Entra para provar — a si mesmo — que o passado não manda mais.
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