No Maracanã das vaias, dos nervos expostos e das almas desarrumadas, o Vitória esteve a um suspiro da glória. Mas o futebol — essa amante cruel, esse adultério coletivo —decidiu castigar o Leão no último minuto.
Existe uma tragédia particular no futebol brasileiro: o sujeito passa noventa minutos acreditando no impossível e, justamente quando começa a acreditar de verdade, o destino aparece para lhe dar um tapa na cara. O Vitória viveu isso no Maracanã.
O estádio era um organismo nervoso. Havia vaias, protestos, gritos contra Zubeldía, caras de enterro nas arquibancadas e uma atmosfera típica dos grandes dramas nacionais — porque o futebol brasileiro não é esporte; é um velório cancelado.
O Fluminense abriu o placar aos 36 minutos do primeiro tempo. John Kennedy, oportunista como um ladrão de sonhos atravessando uma sala escura, apareceu para marcar e incendiar um Maracanã que oscilava entre o amor e o ódio por sua equipe.
O Vitória, contudo, não morreu. E o mais bonito do futebol é justamente isso: o cadáver às vezes levanta.
Na segunda etapa, o rubro-negro voltou com dentes cerrados. Aos 18 minutos, Renato Kayzer empatou a partida após cobrança de pênalti. O gol não era apenas o empate. Era um insulto à lógica, uma afronta ao roteiro que parecia pronto.
GOL DE KAYZER
E quatro minutos depois veio a virada. Renê marcou após assistência de Kayzer e silenciou o Maracanã. Sim, o Maracanã ficou mudo. Há silêncios mais barulhentos do que multidões, e aquele era um deles.
O Vitória passou então a carregar o jogo como quem segura um copo de cristal em meio a um terremoto. Cada minuto parecia uma eternidade. Cada bola lançada pelo Fluminense vinha carregada de ameaça, de angústia, de fatalidade.
GOL DE RENÊ
O tricolor carioca se lançou ao ataque impulsionado mais pelo desespero do que pela organização. A torcida protestava, vaiava jogadores, chamava o treinador de burro, enquanto o time tentava sobreviver dentro da própria ansiedade.
Mas o futebol, esse canalha, guarda sempre uma perversidade final.
Aos 45 minutos do segundo tempo, Serna apareceu para empatar a partida. E naquele instante o Vitória viu escapar entre os dedos uma vitória que já parecia concreta, palpável, quase escrita.
O empate teve gosto de derrota para quem esteve tão perto do impossível. E teve gosto de absolvição para um Fluminense acuado pela própria torcida.
Vaias, pressão e um Maracanã em combustão
O ambiente no estádio foi de absoluta tensão. Jogadores do Fluminense ouviram vaias durante boa parte da partida. Alisson tornou-se alvo após cometer o pênalti que originou o primeiro gol do Vitória. Luis Zubeldía, pressionado pelos resultados recentes, foi chamado de “burro” pela torcida em diversos momentos.
No futebol brasileiro, a idolatria dura quinze minutos e a execução pública começa no décimo sexto.
Ainda assim, John Kennedy foi um dos poucos a escapar da ira tricolor. Autor do primeiro gol e peça decisiva no ataque, o atacante mandou um recado claro ao treinador: quer mais espaço, mais minutos e mais protagonismo.
Como fica a tabela
Com o empate, o Fluminense permanece na terceira colocação do Campeonato Brasileiro, agora com 27 pontos, desperdiçando a oportunidade de assumir a vice-liderança da competição.
Já o Vitória chega aos 19 pontos e ocupa a nona posição. O rubro-negro ainda pode perder posições ao término da rodada, dependendo dos demais resultados.
CANAL VITÓRIA DESTAQUE
Próximos compromissos
As duas equipes agora voltam suas atenções para a Copa do Brasil.
O Fluminense enfrenta o Operário Ferroviário na terça-feira, às 21h30, no Maracanã, após empate sem gols no confronto de ida.
O Vitória volta a campo na quinta-feira, às 21h30, diante do Flamengo, no Barradão. O Leão precisa reverter a derrota por 2 a 1 sofrida no primeiro duelo.
Porque no futebol, como na vida, ninguém sofre uma tragédia completa. Sempre existe outra marcada para a semana seguinte.


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