Jair Ventura reinventou o Vitória no Maracanã, encontrou soluções improváveis e viu a ousadia funcionar.
O futebol brasileiro adora humilhar qualquer sujeito que tente compreendê-lo pela lógica. Quando o torcedor imagina desastre, surge coragem. Quando a vitória parece segura, aparece a tragédia. E foi exatamente assim que o Vitória saiu do Maracanã: entre o orgulho e a frustração, entre a sensação de crescimento e o gosto amargo de uma oportunidade desperdiçada.
Jair Ventura entrou em campo cercado por desfalques, dúvidas e fantasmas estatísticos. E talvez exatamente por isso tenha resolvido cometer uma pequena loucura tática — dessas que fazem o cronista esportivo abrir um sorriso silencioso.
O treinador montou o Vitória com três zagueiros e dois centroavantes. Uma formação que, nas mãos erradas, poderia transformar o time num amontoado melancólico. Mas funcionou. Funcionou porque o futebol também pertence aos ousados, aos desesperados e aos que já entenderam que prudência excessiva costuma terminar em covardia.
Renê e Renato Kayzer, justamente os dois homens de frente, marcaram os gols do empate por 2 a 2 diante do Fluminense. E durante alguns minutos o Maracanã presenciou um fenômeno raro: o Vitória parecia maior que o próprio cenário.
MELHORES MOMENTOS
O primeiro tempo teve um Rubro-Negro inquieto, agressivo e até insolente em certos momentos. O time pressionava alto, marcava a saída de bola tricolor com vários jogadores no ataque e mostrava uma coragem que costuma desaparecer quando clubes nordestinos atravessam a Linha Vermelha rumo ao Rio de Janeiro.
Mas havia um problema. O Vitória trocava passes como quem roda uma chave enferrujada sem conseguir abrir a porta. Muita circulação de bola, pouca agressividade ofensiva. O domínio territorial não virava finalização. O time terminou a primeira etapa sem acertar o gol.
Ainda assim, fazia um jogo equilibrado.
Até surgir o pecado capital do futebol moderno: a bola parada defensiva.
O Fluminense, um dos times mais baixos fisicamente do campeonato, encontrou espaço justamente pelo alto. John Kennedy marcou após cobrança de escanteio e expôs uma contradição quase ofensiva: o Vitória, mais alto em média, conseguiu sofrer um gol aéreo contra um adversário teoricamente inferior nesse fundamento.
O futebol tem dessas ironias. Ele gosta de ridicularizar teorias acadêmicas.
No início do segundo tempo, o Fluminense empurrou o Vitória contra as cordas. Lucas Arcanjo precisou trabalhar como um homem tentando conter enchente com as próprias mãos. O Rubro-Negro parecia perdido.
E então veio o momento em que o futebol rasga o roteiro.
No pior instante do Vitória na partida, Alisson cometeu um pênalti desajeitado, quase infantil. Renato Kayzer cobrou e empatou o jogo. O gol devolveu oxigênio emocional ao Leão.
Poucos minutos depois, Kayzer brigou pela bola no meio-campo e encontrou Renê. O atacante avançou e acertou um chute de fora da área que silenciou o Maracanã. Foi o tipo de gol que transforma um estádio inteiro numa fotografia parada.
A virada mudou completamente o ambiente da partida. O Vitória passou a marcar melhor, ocupou espaços, reduziu os corredores do Fluminense e parecia finalmente pronto para conquistar a primeira vitória como visitante nesta Série A.
Parecia.
Porque existe uma diferença cruel entre controlar um jogo e saber matar um jogo.
O Vitória teve chances para liquidar a partida. Tarzia preferiu concluir mal em vez de tocar para Ronald em melhor condição. Depois, Ronald ignorou Renzo livre na pequena área e finalizou sem ângulo.
O futebol não costuma perdoar desperdícios.
E a punição veio aos 45 minutos do segundo tempo.
Num simples tiro de meta, o sistema defensivo rubro-negro se desmontou como um castelo cansado. Lucas Arcanjo saiu mal, Serna percebeu o espaço e encobriu o goleiro. O empate caiu sobre o Vitória como uma sentença amarga.
O curioso é que o empate teve gosto diferente para cada lado. O Fluminense comemorou como quem escapa de um vexame. O Vitória lamentou como quem deixa escapar uma glória histórica.
Mas existe algo importante escondido nessa dor rubro-negra.
Pela primeira vez neste Campeonato Brasileiro, o Vitória não pareceu um visitante resignado. Pareceu competitivo. Pareceu maduro. Pareceu, em muitos momentos, um time capaz de enfrentar gigantes sem pedir licença.
E talvez isso explique a frustração tão grande do torcedor.
Porque o sofrimento só dói profundamente quando a esperança realmente existiu.
Resumo da partida
- Fluminense 2x2 Vitória — 15ª rodada da Série A;
- Gols do Vitória: Renato Kayzer e Renê;
- Gols do Fluminense: John Kennedy e Serna;
- Destaque tático: esquema com três zagueiros e dupla de centroavantes;
- Situação: Vitória segue sem vencer fora de casa no Brasileirão.
Próximo desafio
- Vitória x Flamengo — Quinta-feira, às 21h30, no Barradão;
- Copa do Brasil: Rubro-Negro precisa vencer por um gol para levar aos pênaltis;
- Vitória por dois gols: garante classificação direta.



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