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| Jair Ventura, técnico do Vitória, em entrevista coletiva — Foto: Gabrielle Gomes |
O Vitória goleou o Coritiba por 4 a 1 no Barradão. Foi uma dessas noites em que o time não apenas ganha — ele convence, seduz, atropela. Renê, Zé Vitor, Diego Tarzia e Erick marcaram. O adversário, reduzido a dez homens ainda no primeiro tempo, virou quase figurante de um espetáculo rubro-negro.
E, no entanto, ali estava Jair Ventura, com a serenidade de quem já viu o futebol trair os ingênuos. Porque o futebol, meus caros, é um canalha: hoje te abraça, amanhã te empurra do precipício.
O técnico exaltou a maturidade da equipe, a concentração, a capacidade de neutralizar um adversário que figurava entre os melhores visitantes da Série A. Era, sem dúvida, uma vitória maiúscula. Mas o discurso não era de euforia. Era de vigilância.
Porque no futebol brasileiro — esse teatro onde heróis viram culpados em 90 minutos — ninguém está salvo da própria ilusão.
Jair Ventura fez questão de destacar dois nomes que simbolizam o momento do time: Zé Vitor e Renê. O primeiro, antes cercado de desconfiança, hoje se afirma. O segundo, em noite endiabrada, participou de praticamente todos os gols.
Renê não apenas marcou. Sofreu a falta da expulsão, articulou jogadas, desorganizou o adversário. Foi daqueles jogos em que o atleta parece maior que o campo — e isso, no futebol, costuma ser perigoso. Porque o futebol não tolera protagonistas por muito tempo.
Com o resultado, o Vitória salta na tabela, afasta-se da zona de risco e começa a olhar para cima. Mas Jair Ventura não se permite o luxo da empolgação.
Ele lembra — e faz questão de lembrar — que o futebol é feito de ironias. O Ceará, adversário da próxima quarta-feira, caiu no ano passado na última rodada. O futebol não respeita coerência, nem lógica, nem justiça.
O treinador quer um time competitivo, organizado, quase obsessivo na disciplina. Porque sabe: quem relaxa, paga. Quem se encanta, cai.
Agora, o foco muda. O Brasileirão dá lugar ao mata-mata. O Vitória encara o Ceará pelas quartas da Copa do Nordeste — e aí, meu amigo, não há segunda chance.
Jair Ventura convocou a torcida. Não como quem pede apoio, mas como quem chama para uma batalha. Porque o Barradão, quando pulsa, não é estádio — é personagem.
“Espero que essa união dê resultado”, disse. E, nesse momento, já não era técnico. Era quase cronista do próprio destino.
O Vitória venceu com autoridade. Jogou bem. Convenceu. Mas sai do campo com uma certeza incômoda: nada disso garante o amanhã.
Porque no futebol — como ensinaria o poeta louco — o óbvio ululante é uma farsa. O favorito tropeça. O improvável acontece. E o herói de hoje pode ser o vilão de amanhã.
O Vitória goleou. Mas, no fundo, sabe: a história ainda não foi escrita. E talvez nunca seja.
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