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| Zé Vitor em Vitória x Ceará nas quartas de final da Copa do Nordeste (Foto: Victor Ferreira / EC Vitória) |
Amigos e amigas, o torcedor é um mártir de arquibancada. O sujeito nasce, cresce, paga boleto, sofre no ônibus lotado — e ainda entrega a própria sanidade ao futebol. O Barradão, nesta quarta-feira, foi menos um estádio e mais um confessionário coletivo. O Vitória venceu o Ceará por 1 a 0, avançou às semifinais da Copa do Nordeste e, ainda assim, deixou a torcida com o coração batendo como escola de samba em noite de carnaval.
O placar foi magro. Magérrimo. Um placar de quem economiza até felicidade. Mas o jogo, ah, o jogo teve o drama das tragédias gregas e o suor dos romances suburbanos. Porque o futebol brasileiro não aceita vitórias tranquilas. A paz ofende o nosso esporte. O brasileiro prefere sofrer. É quase uma vocação nacional.
O Ceará começou a partida como quem chega atrasado numa briga de rua, distribuindo perigo pelos lados do campo. Alex Silva transformava laterais em escanteios morais. Num deles, Zé Vitor quase marcou contra ao acertar o travessão. O Barradão congelou. Houve um silêncio rápido, daqueles que parecem anunciar desastres familiares.
Luan Cândido e Cacá salvaram bolas praticamente em cima da linha. Enquanto isso, o Vitória tentava responder aproveitando as inseguranças do goleiro Bruno Ferreira. Ramon arriscou de longe, Renê tentou no rebote, e a torcida rubro-negra começava a sentir aquele velho pânico ancestral: o medo de dominar sem vencer.
Aos 32 minutos, Luizão acertou Martínez com a brutalidade de um bonde descendo a ladeira sem freio. O árbitro revisou o lance e expulsou o defensor do Ceará. O Barradão rugiu. O Vitória ganhou um homem a mais. E justamente aí começou a angústia rubro-negra.
Porque existe uma maldição silenciosa no futebol: quando um time fica com superioridade numérica, a torcida imediatamente imagina uma goleada. E se a goleada não vem, nasce o medo. O pavor. A paranoia coletiva.
O Vitória pressionava. Matheuzinho chutava de fora. Zé Vitor tentava. Erick buscava espaços. Mas a bola parecia carregar um pacto sobrenatural contra o gol.
No segundo tempo, o Vitória voltou pressionando o Ceará com a insistência de um homem apaixonado batendo à porta errada. Renê quase marcou de cabeça. Erick levou perigo. Matheuzinho tentava incendiar o jogo.
Até que surgiu Renato Kayzer.
Há jogadores que entram em campo. Outros entram para alterar o destino. No retorno após lesão, Kayzer apareceu aos 28 minutos como um personagem rodrigueano: sofrido, desacreditado, quase fantasmagórico. Aproveitou a bola parada e empurrou para as redes.
GOL DE KAYZER
O Barradão explodiu.
Mas não pense o leitor que veio tranquilidade. O futebol brasileiro odeia a tranquilidade com o mesmo fervor que odeia juiz desonesto. Aos 39 minutos, Alex Silva também foi expulso. O Ceará ficou com dois homens a menos. Dois. E ainda assim encontrou forças para assustar.
Pedro Henrique obrigou Lucas Arcanjo a fazer defesas gigantescas. O goleiro rubro-negro virou um santo barroco em noite de procissão. Enquanto isso, Renato Kayzer ainda perderia um gol inacreditável na pequena área.
E foi aí que o torcedor do Vitória compreendeu uma verdade definitiva: o sofrimento não depende do placar. O sofrimento mora dentro do torcedor.
Vitória — Técnico: Jair Ventura
Lucas Arcanjo; Nathan Mendes, Cacá, Luan Cândido e Ramon; Caíque, Baralhas e Zé Vitor; Erick, Renê e Matheuzinho.
Entraram: Renato Kayzer, Ronald Lopes, Tarzia e Jamerson.
Ceará — Técnico: Mozart
Bruno Ferreira; Alex Silva, Éder, Luizão e Fernando; Júlio César, Diego e Vinícius Zanocelo; Fernandinho, Pedro Henrique e Juan Alano.
Expulsos: Luizão e Alex Silva.
No apito final, o Vitória saiu classificado. Mas classificação nenhuma traduz o que foi vivido no Barradão. O futebol não cabe no placar. O futebol mora no susto, no grito, no desespero e na esperança.
E Nelson Rodrigues teria razão ao olhar para aquela multidão rubro-negra: o torcedor não vai ao estádio para assistir ao jogo. Vai para sobreviver emocionalmente a ele.


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