O futebol brasileiro tem dessas ironias perversas. Quando o torcedor finalmente acredita que o sofrimento terminou, surge um contrato escondido numa gaveta para lembrar que a tragédia nunca dorme. O Vitória, embalado pela classificação épica sobre o Flamengo no Barradão, amanheceu diante de um novo tormento: encontrar dinheiro, milagre ou diplomacia suficiente para escalar Nathan Mendes e Luan Cândido contra o Bragantino.
No Barradão, ainda ecoa o grito rouco da multidão depois da eliminação rubro-negra carioca. O povo do Vitória saiu do estádio com aquela sensação rara de eternidade. Durante algumas horas, Salvador acreditou que nada mais poderia ferir o clube. Mas o futebol brasileiro possui a delicadeza de um carrasco.
Nathan Mendes e Luan Cândido pertencem ao Bragantino. Estão emprestados ao Vitória. E o contrato — esse personagem frio, sem coração e sem arquibancada — determina que ambos só podem entrar em campo mediante o pagamento de R$ 1 milhão por jogador.
Dois milhões. Eis o preço para que Jair Ventura mantenha de pé uma defesa que acaba de sobreviver ao Flamengo como um sobrevivente de guerra atravessando escombros.
A diretoria do Vitória tenta costurar um acordo nos bastidores. Conversa daqui, telefonema dali, uma esperança jogada sobre a mesa como quem aposta as últimas moedas num cassino decadente. Porque perder Nathan Mendes e Luan Cândido neste momento seria quase arrancar as vigas de uma casa ainda em chamas.
E o treinador sabe exatamente do que fala. Ramon está suspenso. Mateus Silva segue lesionado. Claudinho voltou aos treinamentos, mas não pisa num gramado competitivo há sete meses — uma eternidade para um jogador de futebol. O elenco rubro-negro olha para trás e encontra um corredor de ausências.
Restaria Edenilson, zagueiro improvisado em lateral, homem destinado a viver múltiplas vidas dentro do mesmo jogo. Ou talvez Neris. Ou Caíque Gonçalves. No Vitória de 2026, cada escalação parece escrita às pressas por um dramaturgo desesperado.
Luan Cândido virou símbolo da classificação diante do Flamengo. Marcou gol, beijou escudo, incendiou arquibancadas. Naquela noite, parecia um personagem rodrigueano: sofrido, improvável e destinado à glória repentina.
Agora, poucos dias depois, transforma-se num problema financeiro.
Nathan Mendes vive situação semelhante. O lateral tornou-se peça importante no sistema defensivo de Jair Ventura justamente quando o time mais necessitava de estabilidade. O futebol, porém, possui um humor cruel: os homens decisivos quase sempre pertencem a alguém.
Não é a primeira vez que o Vitória atravessa esse labirinto. No ano passado, durante a luta desesperada contra o rebaixamento, o clube já havia desembolsado cifras para utilizar jogadores emprestados contra seus próprios donos. Lucas Halter, Erick e Thiago Couto foram exemplos de uma diretoria que aprendeu a sobreviver no improviso.
Mas agora a situação ganhou contornos mais dramáticos. Não se trata de uma peça isolada. Trata-se da própria espinha dorsal defensiva do time.
Existe também um detalhe invisível, impossível de medir em planilhas financeiras: o Vitória mudou emocionalmente depois da classificação contra o Flamengo.
O clube parecia resignado há poucas semanas. Jogava como quem carregava pedras nos ombros. Mas a vitória no Barradão devolveu algo raro ao elenco: arrogância competitiva. O time voltou a acreditar em si mesmo.
CANAL VITÓRIA EM DESTAQUE
Por isso, perder peças importantes antes de enfrentar o Bragantino seria quase uma violência psicológica contra um grupo que finalmente reaprendeu a sorrir.
O jogo deste domingo, às 18h30, no Estádio Cícero de Souza Marques, já nasce cercado de tensão. O Bragantino é jovem, veloz, agressivo. Jair Ventura sabe disso. E sabe também que talvez precise reinventar novamente um sistema defensivo inteiro no espaço de poucos dias.
No futebol, às vezes o herói não é quem faz o gol. É quem consegue sobreviver até o próximo domingo.
- Edenilson pode atuar improvisado na lateral;
- Neris surge como alternativa para a zaga;
- Caíque Gonçalves também aparece como opção defensiva;
- Claudinho voltou aos treinamentos, mas ainda sem ritmo de jogo;
- Mateus Silva permanece lesionado.
Enquanto isso, o torcedor observa tudo como quem encara uma tempestade no horizonte. O Vitória acaba de eliminar o Flamengo. Mas o futebol brasileiro nunca permite descanso aos seus condenados.



0 Comentários