Rubro-Negro faz um primeiro tempo digno de clássico, abre o placar, mas sucumbe na volta do intervalo e sofre virada na decisão do Campeonato Baiano.
Por F. M. Ravenscroft — Salvador
08 de março de 2026
Leitor, permita-me uma confissão. Demorei a escrever esta crônica porque certos jogos não se comentam — eles se digerem. E há partidas que ficam atravessadas na garganta como espinha de peixe.
O Ba-Vi da noite de sábado foi uma dessas tragédias esportivas. Um drama digno de teatro grego, encenado no palco iluminado da Arena Fonte Nova. O Vitória, por 45 minutos, foi valente. Por outros 45, foi apenas um retrato cruel da própria limitação.
Sim, leitor: o futebol é o território do improvável. E por um instante — um breve e glorioso instante — o impossível parecia possível.
O Rubro-Negro começou o clássico como quem entra em duelo antigo. Sem medo. Sem pedir licença. Ramon era um punhal pelo lado esquerdo e levou perigo logo cedo com um chute de fora da área. Depois cruzou para Renato Kayzer cabecear e assustar o rival.
Mas o melhor ainda estava por vir.
Num raro momento em que o Bahia ousou avançar, o Vitória respondeu com aquilo que o futebol tem de mais bonito: o contra-ataque. Matheuzinho conduziu como quem escreve poesia com a bola nos pés, acionou Ramon, e o lateral encontrou Gabriel Baralhas. O volante finalizou sem piedade.
Gol do Vitória.
E naquele instante, leitor, Salvador prendeu a respiração.
Porque o impossível havia decidido aparecer na Fonte Nova.
O primeiro tempo terminou com o Vitória à frente no placar. O time não pressionava alto, mas também não se escondia. Marcava com inteligência e mantinha o Bahia longe da área de Lucas Arcanjo.
Era um jogo equilibrado. Era um clássico.
Mas o futebol, meu amigo, é também uma arte cruel. E a realidade, quando chega, não pede licença.
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A realidade bate à porta
No segundo tempo, a diferença entre os elencos apareceu como um relâmpago em noite escura.
De um lado, Rogério Ceni mexendo com repertório, coragem e alternativas. Do outro, Jair Ventura refém do próprio banco de reservas — e talvez do próprio medo.
O Bahia cresceu. Encontrou espaço justamente no lado esquerdo da defesa rubro-negra. Ramon, herói ofensivo da primeira etapa, virou vítima defensiva na segunda.
E o que era esperança virou tormento.
O empate veio. Depois a virada.
Com apenas vinte minutos da etapa final, o Vitória já corria atrás do placar. E então surgiu a pergunta que ecoou nas arquibancadas, nas redes sociais e nos bares da cidade:
Quem resolveria?
A resposta foi silenciosa.
Mateus Silva, Fabri, Marinho, Cantalapiedra e Osvaldo entraram. Nenhum deles mudou o destino da partida. Não havia sequer um centroavante de origem no banco.
O Vitória terminou o clássico como quem joga moedas ao céu esperando um milagre: bolas longas, cruzamentos desesperados e até Lucas Arcanjo tentando a sorte na área adversária.
Era tarde demais.
O Bahia virou o jogo e levantou o título na própria casa.
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A revolta que sobra
Leitor, permita-me outra franqueza: não se perde clássico apenas por falta de dinheiro. Perde-se também por falta de coragem.
O Vitória mostrou que podia competir. Mostrou que podia lutar. Mostrou, por 45 minutos, que a camisa rubro-negra ainda pesa.
Mas no futebol moderno não basta sobreviver ao primeiro tempo. É preciso ter elenco, alternativas e ousadia.
E isso, infelizmente, faltou.
A torcida rubro-negra — que conhece a própria história — sabe disso. O problema não está apenas no resultado. Está na sensação amarga de que o título escorreu pelos dedos.
Porque, no fundo, todos viram: o Vitória começou o clássico como leão.
E terminou como presa.
O destino insiste no Ba-Vi
E como o futebol gosta de ironias, o destino prepara mais um capítulo dessa rivalidade eterna.
Vitória e Bahia voltam a se enfrentar já na próxima quarta-feira, pela quinta rodada do Campeonato Brasileiro. O palco será novamente a Arena Fonte Nova, mais uma vez com torcida única do Bahia.
Desta vez, Jair Ventura terá reforços. Caíque Gonçalves retorna, enquanto Cacá, Diego Tarzia e Anderson Pato estarão disponíveis após ficarem fora do Estadual. Ainda existe a possibilidade de retorno de jogadores que estavam no departamento médico.
Mas a pergunta que paira sobre Salvador continua a mesma:
o Vitória terá coragem?
Porque elenco limitado se aceita.
Agora, covardia…
Ah, leitor.
Covardia nunca fez parte da história do Leão.
Fontes: cobertura esportiva do Ba-Vi na Arena Fonte Nova, informações de bastidores e análise da partida do Campeonato Baiano 2026.



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