Com estádio lotado e atuação competitiva, Rubro-Negro baiano esbarra em falhas defensivas e em pênalti desperdiçado por Renato Kayzer na derrota por 2 a 1 pela terceira rodada da Série A.
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| Camutanga em Vitória x Flamengo — Foto: Victor Ferreira/EC Vitória |
SALVADOR — Algumas derrotas envergonham. E há derrotas que doem como uma verdade íntima. Na noite de terça-feira, diante de um Barradão pulsante, o Vitória fez talvez sua atuação mais viril no Campeonato Brasileiro de 2026 — e, ainda assim, saiu de campo vencido pelo Flamengo por 2 a 1. Pagou, como em uma tragédia grega jogada em chuteiras, por dois pecados capitais: a falha infantil na defesa e o pênalti desperdiçado que poderia ter redesenhado o destino da partida.
O Barradão estava cheio. Cheio de gente, de expectativa e de memória. Foi ali que o Vitória evitou o rebaixamento em 2025, na base do suor e da crença quase mística. A mesma receita apareceu contra o atual campeão brasileiro e da Libertadores: intensidade, marcação alta em momentos estratégicos e um meio de campo reforçado por três volantes, escolha de Jair Ventura para conter a engrenagem rubro-negra carioca.
Escalado com Gabriel; Nathan Mendes, Camutanga, Luan Cândido e Ramon; Caíque, Baralhas e Dudu; Matheuzinho, Erick e Renato Kayzer, o time Colossal travou o Flamengo em largos trechos da partida. Houve combatividade, divididas ganhas, disputas no limite da respiração. Faltou, contudo, o sopro da criação. Com a bola nos pés, o Vitória parecia carregar um piano invisível.
COLETIVA DE IMPRENSA
Aos 15 minutos do primeiro tempo, Erick Pulgar acertou um chute de rara felicidade de fora da área. Um golpe seco, indefensável, mais fruto do talento do chileno do que de um colapso coletivo. O segundo gol, porém, foi outro assunto. Em cobrança rápida de falta, Nathan Mendes e Camutanga hesitaram — e no futebol hesitar é morrer. Everton Cebolinha avançou como quem invade território desprotegido e ampliou antes do intervalo.
O 2 a 0 parecia injusto para quem assistia a um jogo equilibrado. E o próprio campo tratou de corrigir a narrativa no início da segunda etapa. Matheuzinho diminuiu após jogada que teve a assinatura obstinada de Renato Kayzer, um atacante que luta contra o mundo e, às vezes, contra si mesmo.
Pouco depois, Kayzer cavou — com esforço legítimo — o pênalti sofrido por Nathan Mendes. Era o instante da redenção, a chance de transformar o vilão em herói. Mas o futebol, essa divindade caprichosa, exige sangue frio. Rossi defendeu. O grito ficou preso na garganta de mais de trinta mil almas. O empate evaporou na marca da cal.
Ainda houve tempo para a estreia de Marinho, elétrico pelo lado direito, insinuando uma nova alternativa ofensiva. Porém, o Vitória já não tinha o mesmo vigor físico, e o Flamengo passou a administrar a posse com a autoridade de quem sabe sofrer e sobreviver.
Se é difícil vencer o Flamengo, torna-se impossível quando se oferece um gol por distração e se desperdiça um pênalti. O Vitória saiu derrotado, mas não diminuído. Foi competitivo, foi valente — e foi punido. Jair Ventura agora terá dias para reorganizar o espírito e o sistema antes do próximo compromisso, contra o Bahia de Feira, pelo Campeonato Baiano. Porque no futebol, como na vida, não basta jogar bem. É preciso pecar menos.
Por F. M. Ravenscroft — Salvador | 11 de fevereiro de 2026


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