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Cinco meses depois da humilhação, o Vitória encara seus fantasmas contra o Flamengo

Cinco meses após a goleada histórica no Maracanã, o Rubro-Negro tenta provar que não é apenas um figurante condenado a reviver seus próprios traumas
Zé Marcos em Flamengo x Vitória — Foto: Victor Ferreira/EC Vitória
Zé Marcos em Flamengo x Vitória — Foto: Victor Ferreira/EC Vitória
Por Redação Vitória em Destaque — Salvador | 9 de fevereiro de 2026

Há derrotas que passam. Outras ficam. E há aquelas que se transformam em sentença perpétua. O 8 a 0 imposto pelo Flamengo ao Vitória, no Brasileirão de 2025, pertence à última categoria.

O futebol, esse teatro de paixões exageradas, guarda uma crueldade particular: ele não esquece. Pode até perdoar, mas jamais apaga. E o Vitória, desde a noite de 25 de agosto de 2025, carrega na testa a marca de uma humilhação que ultrapassa o placar. O 8 a 0 no Maracanã não foi apenas uma goleada; foi um desnudamento público, um strip-tease moral diante de um país inteiro.

Naquela noite, o Vitória não perdeu um jogo. Perdeu a compostura, o respeito e, por instantes, a própria identidade. Tornou-se estatística, rodapé de matéria, exemplo didático do que não fazer em uma Série A. Era o maior vexame da era dos pontos corridos, e isso não se corrige com nota oficial.

Cinco meses depois, o destino — sempre irônico — promove o reencontro. Flamengo e Vitória voltam a se encarar, agora no Barradão, às 21h30 desta terça-feira. O cenário mudou, os personagens também, mas o fantasma permanece sentado na primeira fileira, esperando o apito inicial.

A primeira tentativa de apagar o incêndio veio no banco. Fábio Carille caiu ainda no Rio de Janeiro, empurrado para fora pelo peso de oito gols. Rodrigo Chagas tentou segurar os escombros, mas durou pouco. Coube a Jair Ventura assumir o papel ingrato de bombeiro emocional, encarregado de salvar o que restava da temporada — e da dignidade.

Ventura cumpriu sua missão mínima: manteve o Vitória na elite. Com 55% de aproveitamento, ofereceu ao clube algo raro nos últimos anos — estabilidade. Não encantou, não revolucionou, mas evitou o abismo. Foi o suficiente para renovar o contrato. No Vitória recente, sobreviver já é virtude.

O elenco, como manda a tradição rubro-negra desta década, foi desmontado e remontado com pressa e esperança. Onze reforços chegaram, liderados por Marinho, o filho pródigo que retorna após dez anos, como quem tenta reacender uma memória feliz em meio aos escombros. Saíram nomes importantes, entre eles Lucas Halter, capitão naquela noite maldita no Maracanã — talvez um símbolo incômodo demais para permanecer.

Marinho usando o uniforme de 2016 em anúncio no Vitória — Foto: Victor Ferreira/EC Vitória

Taticamente, o Vitória também mudou. O time que enfrentará o Flamengo não guarda semelhança com aquele que foi atropelado. Jair Ventura apostou em três zagueiros, buscou proteção defensiva, tentou blindar a alma antes do corpo. Dos onze que começaram o 8 a 0, apenas cinco ainda figuram como titulares.

Há, contudo, uma diferença fundamental entre ontem e hoje: o contexto. Em 2025, o Vitória lutava desesperadamente contra o rebaixamento. Agora, no início do Brasileirão 2026, há margem para erro, tempo para respirar, ilusão para vender. A estreia com vitória sobre o Remo serviu como anestesia coletiva, dessas que aliviam a dor, mas não curam a doença.

O reencontro com o Flamengo, portanto, não é apenas um jogo da terceira rodada. É um teste de caráter. Uma prova silenciosa para saber se o Vitória aprendeu algo com a maior humilhação de sua história recente ou se apenas trocou os móveis de lugar, mantendo a casa rachada.

O placar desta terça-feira não apagará o 8 a 0. Nada apagará. Mas pode, ao menos, dizer se aquele vexame foi um ponto final ou apenas o primeiro capítulo de uma tragédia longa, dessas que o poeta louco diria ser escrita pelo destino — e assinada pela própria vítima.

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