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O Ba-Vi deste domingo é o 505 da história e o 31º com torcida única

Clássico entre Bahia e Vitória chega à 31ª edição com torcida única e simboliza uma era em que o grito foi separado por decreto.


Clássico BaVi 505

O futebol brasileiro entrou em 2026 com um paradoxo digno das crônicas mais amargas do poeta louco: o espetáculo que nasceu para ser coletivo agora se assiste pela metade. O Ba-Vi deste domingo, o primeiro do ano, será o clássico número 505 da história — e o 31º sem a convivência entre tricolores e rubro-negros nas arquibancadas. Não é exceção. É sintoma.

Desde 2017, com breve intervalo, Salvador se acostumou a clássicos sem o confronto de cores nas arquibancadas. Bahia e Vitória se enfrentam, mas seus torcedores não. O estádio virou território neutro, quase asséptico, como se a paixão precisasse ser esterilizada para não matar o próprio jogo.

O dado é ainda mais perturbador quando ampliado: em 2026, metade dos clássicos das Séries A e B do Campeonato Brasileiro será disputada com torcida única. Além do Ba-Vi, São Paulo mantém seus seis grandes confrontos sob o mesmo regime, enquanto Pernambuco e Goiás seguem caminho semelhante na Série B. O futebol, outrora palco da catarse popular, passa a conviver com a lógica da contenção.

CANAL VITÓRIA EM DESTAQUE 

Na Bahia, a origem dessa decisão tem data, hora e cicatrizes. Em abril de 2017, antes de um Ba-Vi na Arena Fonte Nova, uma briga generalizada resultou em dezenas de apreensões. Após o jogo, a tragédia se consumou: um torcedor morto, outro baleado, o Dique do Tororó transformado em cenário de luto. A resposta veio em forma de decreto: torcida única, recomendada pelo Ministério Público e adotada pela CBF.

Classificação do Baianão 2026

Houve tentativa de redenção. Em fevereiro de 2018, as duas torcidas voltaram ao estádio sob o rótulo esperançoso de “clássico da paz”. Mas o futebol brasileiro, que raramente respeita rótulos, respondeu com nova explosão de violência. Dentro do Barradão, jogadores trocaram socos; fora dele, torcidas se enfrentaram. Desde então, a exceção virou regra — e permanece até hoje.

Estatísticas do BaVi 2026

Enquanto isso, outros estados seguem rumos distintos. No Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná, os clássicos ainda preservam a presença das duas torcidas. Na Série B, Ceará x Fortaleza e Avaí x Criciúma resistem como raros exemplos de convivência possível. São ilhas de normalidade em um oceano de desconfiança.

O Ba-Vi de 2026, portanto, não é apenas um jogo. É um retrato. Um clássico sem o outro lado da arquibancada é como uma tragédia encenada sem coro. O futebol segue em campo, a bola rola, o gol acontece — mas a alma, esta, ficou do lado de fora, revistada, separada, proibida de entrar.

Fonte: F. M. Ravenscroft — Salvador. Informações apuradas a partir de dados do ge.globo e registros oficiais das federações estaduais.



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