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Torcida única transforma o Ba-Vi em um clássico sem espelhos

O clássico entre Bahia e Vitória chega à 31ª edição sem a presença das duas torcidas no estádio 
Jogadores de Bahia x Vitória, que se abraçaram antes do apito final, protagonizaram briga que rendeu a alcunha de "Ba-Vi da Vergonha" para o jogo
Jogadores de Bahia x Vitória, que se abraçaram antes do apito final, protagonizaram briga que rendeu a alcunha de "Ba-Vi da Vergonha" para o jogo

O Ba-Vi de 2026 será mais uma cerimônia solene do futebol brasileiro: noventa minutos de rivalidade vigiada, onde só uma cor pode respirar nas arquibancadas. O clássico mais febril da Bahia repete um ritual iniciado em 2017 e hoje simboliza um país que, para conter a violência, decidiu amputar o espetáculo.

Marcado para este domingo, o primeiro Ba-Vi do ano será o jogo de número 505 da história do confronto — e o 31º disputado sob o regime da torcida única. Desde 2017, com uma breve e mal-sucedida tentativa de reconciliação, tricolores e rubro-negros não dividem o mesmo espaço físico. Em Salvador, o clássico virou um duelo de silêncio parcial: canta-se, mas não se responde.



O que começou como medida emergencial na Bahia tornou-se política permanente em boa parte do futebol nacional. Em 2026, metade dos clássicos das Séries A e B do Campeonato Brasileiro acontece sem a coexistência das torcidas. São Paulo é o exemplo mais acabado: desde 2016, os seis confrontos entre Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos são disputados sob o mesmo modelo, adotado após uma briga que terminou com um torcedor morto.

Na Série B, Pernambuco e Goiás engrossam a estatística. Em Recife, cenas de violência urbana antes de clássicos empurraram Sport x Náutico para o regime de torcida única. Em Goiânia, episódios recorrentes de conflito e limitações estruturais do Serra Dourada selaram a decisão para os duelos entre Goiás, Vila Nova e Atlético-GO.

Na Bahia, a memória que sustenta a medida ainda é recente e dolorosa. Em abril de 2017, uma briga generalizada antes de um Ba-Vi terminou com dezenas de detidos, um torcedor morto e outro baleado nas imediações da Arena Fonte Nova. A resposta veio rápida: por recomendação do Ministério Público, a CBF impôs a torcida única. Houve uma tentativa de retorno à normalidade em 2018, vendida como “clássico da paz”. Durou pouco. Dentro do Barradão, jogadores trocaram socos; fora dele, torcedores repetiram o velho roteiro. A exceção virou regra.

F. M. Ravenscroft, escritor

Enquanto isso, outros estados insistem em preservar o futebol como encontro — ainda que tenso — de opostos. No Rio de Janeiro, os nove clássicos seguem com duas torcidas, assim como Atlético-MG x Cruzeiro, Grêmio x Internacional e Athletico x Coritiba. Na Série B, Ceará x Fortaleza e Avaí x Criciúma resistem como atos de fé na convivência.

O Ba-Vi, porém, segue seu caminho particular. Um clássico que já foi sinônimo de excesso agora é administrado como risco. A rivalidade continua, mas domesticada. No estádio, só uma torcida; do lado de fora, a ausência do outro ecoa como uma pergunta incômoda: o futebol ficou mais seguro — ou apenas mais pobre?

Fonte: apuração a partir de dados do ge.globo, Ministério Público da Bahia e federações estaduais.

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