![]() |
| Ramon Rique Vitória Vasco Copa do Brasil — Foto: Marcio Jose/AGIF |
O Santuário Colossal já foi testemunha de noites em que o Vitória transformou impossíveis em façanhas. Contra o Vasco, porém, a história foi outra. A força da casa não conseguiu esconder a pobreza ofensiva de um time que procurou o gol sem saber, de fato, como encontrá-lo. A derrota por 2 a 0 encerrou a caminhada rubro-negra nas quartas de final da Copa do Brasil e deixou no ar uma pergunta incômoda: para onde vai o Vitória depois de mais uma noite de futebol sem respostas?
O Barradão foi palco dos principais momentos do Vitória nesta temporada. Foi ali que o Rubro-Negro construiu algumas das suas maiores reações, empurrado por uma torcida que aprendeu a desconfiar da lógica e acreditar no impossível. Mas até a fé tem seus limites.
Na noite diante do Vasco, o estádio estava lá. A torcida estava lá. A necessidade de reação estava lá. O que não apareceu foi o futebol capaz de transformar tudo isso em classificação.
O Vasco venceu por 2 a 0 e eliminou o Vitória da Copa do Brasil. O resultado veio depois de uma partida em que o time comandado por Jair Ventura novamente encontrou dificuldades para criar oportunidades e, principalmente, para transformar posse de bola em perigo.
CANAL VITÓRIA EM DESTAQUE
O problema não nasceu naquela noite. Ele já vinha acompanhando o Vitória como uma sombra insistente.
Dos 12 jogos disputados pelo Rubro-Negro no segundo semestre, o ataque passou em branco em oito. É um número que não permite maquiagem. E talvez o episódio mais emblemático tenha ac6ontecido justamente no jogo de ida contra o Vasco.
Naquela partida, o Vitória teve um jogador a mais desde os 17 minutos do primeiro tempo, mas saiu de São Januário derrotado por 1 a 0. A vantagem construída pelo Vasco obrigou o Rubro-Negro a vencer em Salvador e expôs, desde cedo, uma ferida que continuaria aberta até a eliminação.
O Vasco voltou a Salvador disposto a proteger a vantagem. Montou um bloco baixo, ocupou o campo defensivo e utilizou uma linha de cinco jogadores para proteger sua área.
Havia espaço para o Vitória construir. Os zagueiros vascaínos não eram constantemente pressionados. Os meio-campistas encontravam liberdade para trocar passes. Em teoria, era o cenário para o Rubro-Negro empurrar o adversário para trás.
Mas futebol não vive de teoria.
A posse de bola do Vitória se transformou em uma espécie de círculo vicioso. Passe para o lado. Passe para trás. Outra vez para o lado. E o Vasco agradecia.
Faltaram tabelas para quebrar linhas. Faltaram ultrapassagens pelos lados. Faltaram infiltrações. Faltou criatividade. Faltou, sobretudo, aquela jogada que faz a torcida levantar antes mesmo de a bola chegar ao atacante.
As finalizações apareceram principalmente em cruzamentos e bolas paradas, quase sempre sem força suficiente para ameaçar o goleiro Léo Jardim.
E quando o ataque não encontra a porta, qualquer descuido defensivo pode virar sentença.
Mesmo recuado e apostando nos contra-ataques, o Vasco criou as melhores oportunidades do primeiro tempo. Spinelli acertou a trave. Ramon Rique e Andrés Gómez também chegaram perto de marcar.
O Vitória tinha a obrigação de atacar. O Vasco tinha a vantagem. E, naquele momento, parecia que o visitante sabia exatamente qual partida queria jogar, enquanto o mandante procurava desesperadamente descobrir a sua.
Aos dez minutos do segundo tempo, a bola parada finalmente pareceu oferecer ao Vitória aquilo que o jogo aberto não conseguia entregar: um gol.
A comemoração, porém, durou pouco.
O árbitro de vídeo identificou posição irregular de Luan Cândido, e o gol foi anulado pelo impedimento semiautomático.
O Vitória continuava precisando de um gol. E continuava sem encontrar uma maneira consistente de construí-lo.
Jair Ventura então mexeu na equipe. Tarzia saiu para a entrada de Renê, numa tentativa de colocar mais presença ofensiva e aproximar os homens de frente.
Depois, aos 25 minutos, veio a cartada mais agressiva. Marinho entrou no lugar de Cacá. Zé Vitor foi recuado para exercer a função de zagueiro.
Era o tudo ou nada.
Só que, naquele movimento, o Vitória abriu um buraco no meio de campo.
E o Vasco não costuma precisar de muitos convites.
Dez minutos depois, Andrés Gómez recebeu espaço, atravessou o campo e encontrou o momento para finalizar da entrada da área. A bola entrou. O Vasco fez 1 a 0.
O gol foi um golpe duro porque revelou, em uma única jogada, os problemas que o Vitória vinha carregando durante toda a partida: desorganização, espaço concedido e dificuldade para reagir quando o adversário encontra um caminho.
Jair Ventura ainda tentou corrigir a estrutura. Edenilson entrou no lugar de Ramon para recompor a defesa.
LOJA DE LIVROS
Mas o jogo já havia escapado.
O time que começou a partida com dificuldades para atacar terminou desfigurado, sem organização e ainda sem poder de fogo.
Aos 51 minutos, o Vasco marcou novamente. O segundo gol apenas colocou no placar uma diferença que, em campo, já parecia desenhada havia algum tempo.
A eliminação da Copa do Brasil não é um episódio isolado. Ela se soma a uma sequência de quatro derrotas consecutivas, a maior do Vitória na temporada.
No segundo semestre, são apenas três vitórias em 12 partidas.
O número preocupa por duas razões. A primeira é óbvia: o Vitória perdeu a oportunidade de continuar vivo em uma competição nacional de mata-mata. A segunda é ainda mais delicada: a má fase também começa a produzir efeitos no Campeonato Brasileiro.
Nos pontos corridos, a margem para a zona de rebaixamento diminuiu. O Rubro-Negro precisa agora abandonar rapidamente a dor da eliminação e concentrar todas as forças na luta pela permanência na Série A.
Não existe mais Copa do Brasil para servir como distração. Não existe outra competição para dividir atenções.
Resta o Brasileirão.
Há uma ironia cruel nessa história. O Barradão continua sendo uma das maiores armas do Vitória em 2026, mas, diante do Vasco, a força do estádio não conseguiu produzir a reação esperada.
O mesmo palco que testemunhou a virada sobre o Flamengo e a goleada sobre o Athletico-PR agora assistiu à eliminação da Copa do Brasil.
É justamente aí que mora a cobrança.
O torcedor não exige apenas esforço. Ele quer enxergar uma equipe capaz de transformar a energia da arquibancada em futebol. Quer reconhecer um plano. Quer perceber que cada passe tem uma intenção e que cada ataque pode terminar em alguma coisa.
Contra o Vasco, essa conexão não aconteceu.
A torcida empurrou. O time tentou. Mas tentativa sem clareza vira apenas cansaço.
O Vitória tem pouco mais de três meses de futebol pela frente e uma missão que ficou mais urgente depois da eliminação: alcançar a pontuação necessária para permanecer na Primeira Divisão.
O próximo compromisso será contra o Grêmio, na segunda-feira, às 20h (de Brasília), no Barradão, pela 26ª rodada do Campeonato Brasileiro.
Será outra noite no mesmo estádio. Outra vez a torcida estará presente. Outra vez haverá pressão, expectativa e cobrança.
Mas agora não existe margem para pensar no que poderia ter acontecido contra o Vasco.
A Copa do Brasil acabou.
A dor da eliminação também terá de acabar.
Porque o Vitória não pode passar os próximos três meses lamentando a Copa que perdeu. Precisa entrar em campo para salvar a temporada que ainda pode ser salva. E, para isso, terá de encontrar justamente aquilo que faltou diante do Vasco: futebol, coragem e, acima de tudo, gol.



0 Comentários