O Vitória tenta despistar possível retorno de Wagner Leonardo, mas o retorno permanece condicionada ao pagamento da dívida milionária que o Grêmio ainda possui com o Leão
O futebol tem dessas ironias que fariam qualquer dramaturgo abandonar a própria caneta. Um jogador parte como herói, veste outra camisa e, pouco tempo depois, seu nome volta a ecoar onde jamais deixou de ser lembrado. Wagner Leonardo tornou-se esse personagem. O Vitória deseja sua volta. O zagueiro também enxerga com bons olhos o retorno ao Barradão. Mas entre o desejo e a realidade existe uma cifra milionária. O destino da negociação não está nos gramados, mas nas contas que ainda permanecem abertas entre Vitória e Grêmio.
Nos corredores do Barradão, o assunto voltou a ganhar força. O interesse é verdadeiro. O reencontro também agrada ao defensor. Entretanto, a diretoria rubro-negra deixou claro que a operação depende, antes de tudo, da regularização da dívida existente pela venda do atleta ao clube gaúcho. Sem esse pagamento, não há negociação capaz de transformar o desejo em contrato.
Foi o próprio presidente Fábio Mota quem confirmou, durante entrevista coletiva realizada para apresentar novos patrocinadores do clube, que o Vitória tentou repatriar Wagner Leonardo antes da contratação do zagueiro argentino Emmanuel Brítez. As conversas chegaram a acontecer, mas não avançaram. Segundo o dirigente, o Grêmio não aceitava liberar o jogador e tampouco quitava os valores pendentes da negociação anterior.
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O desabafo do presidente sintetizou o sentimento da diretoria rubro-negra. O Vitória não pretende abrir mão de um ativo financeiro importante apenas para facilitar o retorno de um atleta que ajudou a escrever uma das páginas mais marcantes da história recente do clube. Para o Leão, antes do reencontro existe uma obrigação contratual que precisa ser cumprida.
A estratégia construída pela diretoria buscava justamente utilizar o retorno de Wagner Leonardo como parte da compensação da dívida existente. Contudo, segundo explicou o diretor de futebol Sérgio Papellin, o Grêmio ainda possui aproximadamente 2,5 milhões de dólares em aberto, valor que gira em torno de R$ 13 milhões. Essa pendência impede qualquer avanço mais concreto nas tratativas.
De acordo com informações divulgadas pelo jornalista Leonardo Santiago, do Canto Rubro-Negro, o Vitória mantém posição firme. O clube pretende receber integralmente os valores vencidos antes de aceitar a volta do defensor. Somente depois da regularização financeira haveria espaço para discutir a transferência.
Ainda conforme a apuração, existe a possibilidade de o restante da dívida ser convertido em percentual dos direitos econômicos de Wagner Leonardo, permitindo que o Vitória recupere parte do investimento realizado na contratação do zagueiro. Trata-se de uma alternativa que pode beneficiar ambas as partes, mas que continua dependente de um entendimento financeiro entre os clubes.
Enquanto dirigentes discutem cifras, o nome de Wagner Leonardo continua despertando desconfiança entre os torcedores rubro-negros. Sua passagem pelo Barradão permanece viva na memória da arquibancada. Contratado em 2023, rapidamente conquistou a condição de titular absoluto e tornou-se um dos pilares da equipe.
Foi protagonista na campanha que levou o Vitória ao histórico título da Série B do Campeonato Brasileiro, a primeira conquista nacional do clube. No ano seguinte, assumiu a braçadeira de capitão após a saída de Zeca e liderou o elenco na conquista do Campeonato Baiano de 2024, superando o maior rival na decisão estadual.
Os números ajudam a explicar o tamanho da identificação construída com a camisa rubro-negra. Wagner Leonardo disputou noventa e sete partidas pelo Vitória, marcou onze gols e distribuiu uma assistência. Para um defensor, são estatísticas que ultrapassam a função de proteger a defesa. Revelam um jogador que também sabia decidir partidas e assumir responsabilidades.
Em fevereiro de 2025, o Grêmio acertou sua contratação por 4,5 milhões de dólares, valor equivalente a aproximadamente R$ 25,7 milhões na cotação da época. A negociação parecia encerrar um ciclo vitorioso. Hoje, porém, o roteiro ganhou novos capítulos.
Existe algo profundamente humano nessa história. O torcedor está com o pé atrás ao rever um velho traíra. O jogador não fecha as portas para regressar. O clube reconhece sua importância técnica. Mas o futebol moderno também é feito de contratos, planilhas e compromissos financeiros. Antes da emoção, existe a matemática.
Assim, Wagner Leonardo permanece entre dois mundos. De um lado, Porto Alegre. Do outro, Salvador. Entre ambos, uma dívida milionária que separa a saudade do reencontro. No futebol, algumas voltas dependem apenas da vontade. Outras precisam primeiro acertar as contas com o passado.



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