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Jair Ventura completa 50 jogos pelo Vitória com vitória sobre o Vasco e defende a continuidade no comando.

Cinquenta partidas depois, treinador transforma permanência em argumento e vitória em destino

Jair Ventura, técnico do Vitória

O futebol brasileiro possui um hábito cruel: trata o treinador como um condenado que vive de sentença em sentença. Basta um tropeço para que a praça exija a cabeça do réu. Mas Jair Ventura atravessou essa fogueira. Na vitória por 1 a 0 sobre o Vasco, no Barradão, pela 19ª rodada do Campeonato Brasileiro, o técnico alcançou a marca de cinquenta partidas no comando do Vitória e encontrou, no mesmo instante, aquilo que raramente se concede a um treinador neste país: tempo. O gol de Renato Kayzer decidiu o jogo. A longevidade deu sentido à história.

Há dez meses, Jair desembarcava em Salvador para salvar um clube ameaçado pelo rebaixamento. Era um homem cercado pela desconfiança, como tantos outros. Hoje, retorna ao mesmo banco carregando uma Copa do Nordeste, uma classificação histórica sobre o Flamengo na Copa do Brasil e um Vitória instalado na parte superior da tabela da Série A. O futebol, que costuma esquecer seus personagens com velocidade assustadora, desta vez resolveu fazer justiça.

Após a partida, o treinador falou da marca alcançada sem esconder o orgulho. Para ele, os cinquenta jogos representam muito mais que um número. São o símbolo de uma relação construída entre comissão técnica, elenco e torcida. O resultado diante do Vasco, segundo Jair, foi o presente que o grupo ofereceu a si mesmo depois de uma intertemporada marcada por treinamentos intensos e pela chegada de novos reforços.

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Os dezenove dias sem jogos dividiram opiniões. Enquanto alguns clubes preferiram amistosos de maior intensidade, o Vitória optou por preservar a condição física do elenco e aprofundar conceitos táticos. Jair reconheceu que o Vasco iniciou melhor a partida justamente por estar mais adaptado ao ritmo competitivo. Mas sustentou que, à medida que o jogo amadureceu, o Rubro-Negro tomou conta das ações até transformar a pressão alta no lance que originou o gol decisivo de Renato Kayzer.

Foi uma vitória construída menos pela pressa do que pela paciência. O treinador viu sua equipe crescer durante os noventa minutos e colheu os frutos de um trabalho silencioso, desenvolvido longe dos holofotes. Para ele, o futebol continua sendo uma arte que exige repetição, confiança e continuidade.

Jair voltou a defender aquilo que considera um dos maiores problemas do futebol brasileiro: a falta de tempo para trabalhar. Em sua visão, o treinador muitas vezes não recebe o direito de corrigir erros, experimentar alternativas ou modificar uma equipe sem ser imediatamente julgado pelos resultados. Citou o exemplo de Abel Ferreira, no Palmeiras, para reforçar que projetos vencedores dependem de estabilidade e convicção.

A manutenção da comissão técnica permitiu ao Vitória preservar uma identidade. A base campeã do Nordeste permaneceu reunida, enquanto reforços como Brítez, Walace e Pochettino ampliaram as possibilidades táticas do elenco. Para Jair, essa concorrência saudável oferece ao treinador uma rara dor de cabeça: escolher entre atletas preparados para ocupar qualquer posição sem comprometer o rendimento coletivo.

Nem tudo, porém, saiu exatamente como planejado. Matheuzinho foi desfalque por causa de uma virose, Zé Vitor deixou a partida ainda no primeiro tempo e novas mudanças precisaram ser feitas durante o confronto. Ainda assim, os dias de treinamento permitiram ao comandante lançar Diego Tarzia em uma função diferente, utilizar os recém-chegados e manter a competitividade da equipe mesmo diante das adversidades.

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Jair também fez questão de valorizar a disputa interna entre Renê e Renato Kayzer. Para ele, o ambiente competitivo impulsiona ambos os atacantes a evoluírem diariamente. O gol da vitória apenas reforçou essa percepção. Da mesma forma, destacou o crescimento de Jamerson improvisado, a versatilidade de Fabri e as diferentes características ofensivas que o elenco passou a oferecer após a reformulação promovida na janela de transferências.

O treinador ainda falou sobre aqueles que deixaram o clube. Preferiu o tom da gratidão ao da despedida. Recordou que todos contribuíram para a caminhada construída até aqui e afirmou que mudanças fazem parte da natureza do futebol. Quem permaneceu, entretanto, recebeu uma responsabilidade maior: manter viva a identidade que transformou um time ameaçado pelo descenso em um candidato permanente às primeiras posições da competição.

Agora, o Vitória volta suas atenções para o compromisso atrasado contra o Botafogo, no estádio Nilton Santos. O desafio vai além da busca por três pontos. A equipe tenta finalmente encerrar a sequência sem vitórias longe de Salvador e concluir o primeiro turno de forma ainda mais consistente. Jair Ventura sabe que o futebol continua impiedoso. Cinquenta jogos não garantem o quinquagésimo primeiro. Mas também aprendeu que, quando um treinador conquista o direito de permanecer, a permanência deixa de ser estatística. Torna-se destino.

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