Rubro-Negro abriu 2 a 0 sobre o Mirassol em apenas 12 minutos, chegou a marcar o terceiro, mas perdeu o controle no segundo tempo e segue sem vencer fora de casa no Brasileirão
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| Jair Ventura em Mirassol x Vitória — Foto: Victor Ferreira / EC Vitória |
O Vitória teve o jogo nas mãos. Durante algum tempo, teve também a impressão de que segurava o destino pela gola. Dois gols em 12 minutos, domínio, confiança e até um terceiro gol que chegou a balançar a rede. Mas futebol, essa criatura de humor péssimo, não costuma respeitar quem acredita que a história já terminou.
O Vitória abriu 2 a 0 sobre o Mirassol na tarde deste domingo, no Maião, mas permitiu a reação do adversário e terminou a partida com um empate por 2 a 2. O resultado manteve o Rubro-Negro sem vencer como visitante nesta Série A e deixou uma pergunta incômoda no ar: por que o time que foi senhor do primeiro tempo desapareceu justamente quando precisava administrar a vantagem?
Jair Ventura não fugiu da pergunta. Depois do jogo, o treinador apontou o aspecto mental como uma das principais explicações para a queda de rendimento. Para ele, a diferença entre as duas etapas foi grande demais para ser tratada apenas como uma questão tática.
“É uma situação muito mental. A gente até conseguiu o terceiro gol, depois tivemos muita dificuldade para fazer o que estávamos fazendo. Parece ser uma coisa mental, não podemos ter essa discrepância tão grande de um tempo para o outro”, afirmou Jair.
CANAL VITÓRIA EM DESTAQUE
Um Vitória de dois rostos
O treinador voltou ao esquema com três zagueiros e justificou a mudança pelo bom desempenho de Brítez e pelo retorno de Cacá. A equipe retomou a saída de três e começou a partida com uma autoridade que fazia o torcedor acreditar que, finalmente, o Vitória poderia transformar a boa atuação contra o Grêmio em uma sequência positiva.
O primeiro tempo foi do Vitória. O time criou oportunidades, marcou dois gols e chegou a fazer um terceiro, lance que poderia ter sido determinante para sepultar qualquer reação do Mirassol. Mas o futebol tem dessas ironias. O terceiro não resolveu a partida. E o segundo tempo transformou a vantagem em angústia.
“O jogo começou com a mudança pelo bom desempenho do Brítez e pela volta do Cacá. Voltamos a jogar com a saída de três. Começamos melhor, criamos chances, fizemos gols. Fizemos o terceiro gol, que seria determinante. Depois o adversário teve os méritos. Foram dois tempos distintos. O primeiro tempo foi melhor para o Vitória e o segundo melhor para o Mirassol”, analisou Jair.
O peso de não vencer fora
A falta de uma vitória fora de casa já deixou de ser apenas uma estatística. Para Jair Ventura, começa a ocupar espaço na cabeça dos jogadores. O treinador lembrou que o Vitória apresentou dois tempos muito diferentes também diante do Fluminense e admitiu que o problema precisa ser enfrentado pelo lado psicológico.
“Isso acontece muito fora de casa. Contra o Grêmio fomos bem nos dois tempos. Acho que a situação já está ficando mental, foi assim contra o Fluminense também. Temos que trabalhar o mental, que está pesando demais”, afirmou.
Na visão do treinador, o Vitória entra no segundo tempo carregando uma espécie de sentença antecipada. Como se a equipe acreditasse que a vitória já deveria estar assegurada e, por isso, diminuísse a intensidade antes de a partida realmente acabar.
“A gente entra como se o jogo já tivesse terminado, mas não tinha, eram mais 50 minutos. O peso de não vencer está neles e temos que tirar isso o quanto antes”, explicou Jair.
FALA JAIR
Por que Matheuzinho ficou no banco?
Outra decisão chamou atenção antes mesmo de a bola rolar. Matheuzinho, titular na vitória sobre o Grêmio, permaneceu no banco durante toda a partida. Jair Ventura explicou que a escolha foi pensada de acordo com a característica que desejava para o confronto.
“Foi opção. A gente tem que mudar sem saber o que vai acontecer depois do resultado, e quando o resultado não acontece vem a cobrança”, disse o treinador.
Jair explicou que enxerga Matheuzinho como um camisa 10 clássico, enquanto Pochettino possui mais familiaridade com o jogo pelos lados do campo. Com o Vitória em vantagem por 2 a 0, a comissão técnica optou por um jogador capaz de atacar os espaços, justamente uma característica utilizada na construção dos gols.
“Eu vejo o Matheuzinho como um camisa dez clássico, e o Pochettino está mais acostumado a fazer o lado. Então, como eu estava ganhando de 2 a 0, precisava de ataque ao espaço, que foi como a gente fez os dois gols. Matheuzinho já fez esse papel, mas ele é um dez clássico. Então optamos pelo Pochettino esse jogo”, explicou.
CLASSIFICAÇÃO DO BRASILEIRÃO
As substituições de Jair Ventura
- Marinho e Tomás Pochettino entraram aos 25 minutos do segundo tempo nos lugares de Erick e Diego Tarzia;
- Edenilson substituiu Caíque Gonçalves aos 32 minutos do segundo tempo;
- Renato Kayzer entrou no lugar de Renê aos 36 minutos do segundo tempo.
Jair terminou a partida sem utilizar todas as substituições disponíveis. A decisão, segundo o treinador, esteve ligada às características que pretendia preservar durante o jogo e não a uma falta de alternativas.
Um ponto que dói, mas também vale
O empate levou o Vitória aos 33 pontos e à 12ª posição. A distância para o Vasco, primeiro clube dentro da zona de rebaixamento, passou a ser de cinco pontos. O Mirassol, concorrente direto na luta contra a parte de baixo da tabela, chegou aos 29 pontos e ocupa a 15ª colocação.
É aí que nasce a contradição do resultado. Pela circunstância, o Vitória perdeu dois pontos. Pela tabela e pelo contexto de um confronto direto fora de casa, conquistou um ponto que pode ter valor mais adiante.
“Vai ser jogo a jogo. A gente sabe da dificuldade da competição. Esse ano estamos em uma condição muito melhor que o ano passado. A circunstância deixa o resultado muito triste, mas seguramos um empate fora de casa em um confronto direto”, avaliou Jair.
O treinador reconheceu que ninguém sai satisfeito depois de abrir dois gols de vantagem, mas ponderou que, antes da partida, um empate fora de casa diante de um concorrente direto não seria considerado um desastre.
“Claro que não foi bom depois de abrir 2 a 0, mas se pudesse assinar um empate no confronto direto, pega o contexto todo. A gente não fica satisfeito com o empate, mas segurar um adversário não é uma situação totalmente ruim. Foi um ponto importante”, afirmou.
O Barradão agora vira o refúgio
O Vitória continua perseguindo aquela vitória fora de casa que virou uma espécie de fantasma da temporada. Mas existe uma notícia capaz de aliviar o ambiente: a próxima partida pelo Brasileirão será em Salvador.
O Barradão receberá o Cruzeiro no próximo domingo, às 16h, pelo horário de Brasília. Jair Ventura terá uma semana livre para recuperar os jogadores, reorganizar a equipe e, principalmente, trabalhar aquilo que ele próprio apontou como uma das maiores preocupações atuais: a cabeça do time.
“Temos a semana para recuperar atletas e tentar voltar a vencer no próximo jogo, que é em casa”, afirmou.
Reforços podem voltar
A semana também pode trazer novidades ao departamento médico. Jair Ventura revelou a possibilidade dos retornos de Baralhas e Martínez. O treinador ainda destacou Rúben Ismael, que não entra em campo há mais de um ano e pode oferecer uma característica diferente ao elenco.
“Algumas peças importantes vão retornar. Podemos ter o retorno de Baralhas e Martínez. Rúben Ismael, que não joga há mais de um ano, nos dá outro perfil de jogo”, explicou.
Três zagueiros? Jair ainda vai decidir
A formação com três zagueiros funcionou no primeiro tempo diante do Mirassol, mas Jair Ventura não garantiu que repetirá o desenho contra o Cruzeiro. O treinador afirmou que vai estudar o adversário antes de definir a estratégia.
“Vou avaliar o Cruzeiro, como jogam, se povoam mais o meio. O Mirassol mudou um pouco o jeito de jogar, fez mais cruzamentos. Então vamos analisar. Eu não me prendo a sistemas, quem estiver no melhor momento vai jogar”, declarou.
Dois pontos perdidos ou um ponto conquistado?
A pergunta foi inevitável. Jair respondeu sem fugir da contradição. Pela fotografia do jogo, dois pontos escaparam. Antes da bola rolar, porém, o empate como visitante contra um adversário direto não seria motivo para lamento.
“Se você pegar pela circunstância do jogo, foram dois pontos perdidos. Mas antes do jogo um empate fora não seria ruim”, resumiu.
Alex Bruno e Lucas Silva
Questionado sobre Alex Bruno e Lucas Silva, que ainda não vêm recebendo oportunidades recentes, Jair Ventura lembrou que os dois já tiveram chances sob seu comando.
“Alex Bruno e Lucas Silva já jogaram comigo. Já dei oportunidade, sim”, respondeu.
O que mais incomodou Jair?
No fim da entrevista, uma última pergunta resumiu o drama do Vitória no Maião: o que incomodou mais o treinador, os gols sofridos ou a perda do controle da partida?
A resposta veio curta, sem maquiagem:
“Os dois me incomodaram bastante.”
E talvez esteja aí o retrato mais fiel do Vitória em Mirassol. Um time que, por alguns minutos, teve a partida sob controle e mostrou futebol para vencer. Depois, quando a vantagem deveria trazer tranquilidade, trouxe medo. O adversário cresceu, o Vitória recuou, e a vitória que parecia encaminhada terminou em empate.
Agora Jair Ventura terá uma semana para trabalhar. Não apenas pernas, não apenas posicionamento, não apenas sistema. Terá de trabalhar a cabeça. Porque o Vitória já mostrou que sabe começar uma partida como vencedor. Falta aprender a permanecer vencedor até o último apito.



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