Diante de um Santos pressionado, o Vitória voltou a exibir duas personalidades distintas: uma dentro de casa, quase soberana; outra longe de Salvador, vulnerável, hesitante e incapaz de transformar reação em resultado.
O Vitória, neste primeiro semestre, viveu exatamente esse dilema. No Barradão, mostrou dentes, coragem e personalidade. Na Vila Belmiro, porém, reapareceu o velho fantasma das atuações como visitante. Derrotado por 3 a 1 pelo Santos, na 18ª rodada do Campeonato Brasileiro, o time de Jair Ventura encerrou a primeira metade da temporada sem conquistar uma única vitória fora de casa na Série A.
O futebol não é feito apenas de pernas e esquemas táticos. É feito, sobretudo, de almas. E algumas almas carregam suas próprias contradições. O Vitória desembarcou em Santos trazendo a confiança de quem acabara de eliminar o ABC e garantir vaga na final da Copa do Nordeste. Mas bastaram noventa minutos para que a equipe reencontrasse seu lado mais inseguro.
Afinal, os extremos se tocam. O mesmo time que encanta em Salvador parece se perder quando atravessa as fronteiras do próprio território. A beleza e o abismo caminham juntos. O Vitória foi, ao mesmo tempo, competitivo e frágil, ousado e desorganizado, resistente e vulnerável.
Jair Ventura precisou reorganizar sua defesa diante dos desfalques. Sem Lucas Arcanjo, Nathan Mendes e Cacá, optou por uma formação híbrida, utilizando Caíque Gonçalves em múltiplas funções. O plano tinha lógica. O futebol, porém, raramente respeita a lógica.
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Nos minutos iniciais, o Rubro-Negro procurou fechar espaços e reduzir a influência ofensiva santista. Entretanto, aos 18 minutos, surgiu a primeira rachadura. Miguelito encontrou liberdade justamente no setor que deveria estar protegido. O chute desviou em Claudinho e enganou Gabriel Vasconcelos. O gol parecia apenas um detalhe estatístico. Não era. Era o início da tragédia esportiva da noite.
O Vitória tentou reagir. Com a saída de Gabriel Baralhas, lesionado, e a entrada de Martínez, a equipe passou a ocupar mais o campo ofensivo. Houve esforço, movimentação e posse de bola. Faltou, contudo, aquilo que decide partidas: contundência.
A melhor oportunidade da primeira etapa nasceu mais de um lampejo individual do que de uma construção coletiva. Era como se o time rondasse a área santista sem jamais encontrar a porta de entrada.
No retorno do intervalo, a esperança reapareceu. Diego Tarzia entrou em campo, o Vitória adiantou suas linhas e produziu algumas finalizações. Durante alguns minutos, parecia possível alterar o destino da partida. Mas o futebol tem seus momentos de crueldade.
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Aos oito minutos, Barreal aproveitou um rebote e ampliou para o Santos. Dois minutos depois, um erro na saída de bola desmontou completamente o sistema defensivo rubro-negro. Gabriel Barbosa apareceu para marcar o terceiro. Em apenas dois minutos, o jogo escapou das mãos do Vitória.
A dor e o sofrimento são inevitáveis para um coração profundo. O torcedor rubro-negro conheceu essa sensação ao perceber que a partida estava praticamente definida por falhas que poderiam ter sido evitadas.
Curiosamente, o próprio Santos ofereceu uma fresta de esperança. Gabigol foi expulso após um gesto obsceno e deixou os paulistas com um homem a menos. O cenário mudou. O relógio ainda permitia sonhar.
Jair Ventura lançou atacantes, retirou defensores e empurrou sua equipe para frente. Era uma aposta de quem compreendia que o empate ainda podia ser perseguido. Aos 29 minutos, Renê subiu mais alto que todos e diminuiu a diferença. O gol incendiou a partida.
Por alguns instantes, a Vila Belmiro testemunhou um Vitória mais agressivo, mais corajoso e mais próximo daquela versão conhecida pelo Barradão. Renê ainda acertou uma bicicleta na trave, lance que resumiu perfeitamente a noite rubro-negra: esforço máximo, recompensa mínima.
Vieram cruzamentos, insistência e pressão. Não veio o segundo gol. O placar permaneceu intacto até o apito final. O Santos comemorou. O Vitória deixou o gramado carregando perguntas que ainda exigem respostas.
O mistério da existência humana não está apenas em permanecer vivo, mas em encontrar algo pelo qual viver. No futebol, esse sentido costuma ser a capacidade de superar limites. O Vitória terá agora a oportunidade de buscar essa resposta na Copa do Nordeste, competição em que já demonstrou personalidade longe de Salvador.
A derrota na Vila Belmiro não apaga a campanha construída até aqui, tampouco elimina os méritos do semestre. Mas expõe uma ferida aberta: a incapacidade de reproduzir fora de casa o mesmo futebol que transforma o Barradão em fortaleza.




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