Treinador reconhece momento ruim, cobra mais entrega do elenco e aposta na pausa do calendário para recuperar jogadores e preparar o Vitória para a reta final do Campeonato Brasileiro
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| Jair Ventura em entrevista coletiva depois de Vitória x Vasco — Foto: Reprodução/TV Vitória |
O Barradão, que tantas vezes foi palco das grandes façanhas do Vitória em 2026, terminou o domingo com um som que nenhum time deseja ouvir: a vaia. A derrota por 3 a 1 para o Cruzeiro fez a arquibancada perder a paciência. E Jair Ventura, em vez de procurar uma desculpa, reconheceu a cobrança do torcedor.
“Pelo nosso segundo tempo, temos que ser vaiados mesmo”, afirmou o treinador.
A declaração resume a temperatura de uma tarde em que o Vitória apresentou dois times. Um no primeiro tempo, competitivo e capaz de controlar o jogo. Outro no segundo, desorganizado, vulnerável e castigado por erros que transformaram uma partida equilibrada em derrota dentro de casa.
Jair reconheceu que o torcedor tem direito de cobrar, desde que a manifestação não ultrapasse os limites da agressão. Para ele, saber conviver com a crítica também faz parte da profissão.
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“Todo mundo tem que estar preparado para críticas. A gente só não pode mudar o tom e levar para o pessoal, que aí deixa de ser profissional. Acho que a torcida sempre pode cobrar, desde que não tenha agressão. Como que eles não vão vaiar depois de um jogo desse? Temos que conviver com isso. A vida do atleta é isso, é saber que precisa dar a volta por cima. Todo profissional do futebol tem que estar preparado para os momentos ruins”, completou.
“Uma coisa é perder jogando, outra coisa é não competir”
O treinador também fez uma cobrança direta ao elenco. Para Jair Ventura, o comprometimento não pode desaparecer, mesmo quando os resultados desaparecem.
“Nossa instabilidade afasta o torcedor. Eles querem ver o Vitória do primeiro tempo nos dois tempos. Eu também quero muito. A gente jogou contra o Flamengo, os caras bateram na gente, Palmeiras também, a gente tem que matar a transição, os jogadores são cobrados por isso. A gente não pode deixar de competir. Uma coisa é perder jogando, outra coisa é não competir. Então temos que mostrar dentro de campo que podemos trazer o torcedor de volta”, disse.
O Vitória tem sido perseguido por uma espécie de fantasma: a incapacidade de sustentar durante 90 minutos aquilo que consegue construir em determinados momentos. Contra o Mirassol, abriu 2 a 0 e permitiu o empate. Contra o Cruzeiro, voltou a sofrer uma transformação dentro da própria partida.
Um Vitória no primeiro tempo, outro no segundo
Jair explicou que a equipe iniciou o confronto com a intenção de utilizar os alas para dar amplitude ao ataque. A estratégia funcionou durante boa parte da primeira etapa, quando o Vitória teve oportunidades claras com Diego Tarzia, Renê e Erick.
“A gente começa com proposta de fazer amplitude com os alas. No primeiro tempo a gente controla muito bem, tivemos chances claras com Tarzia, Renê e Erick. Tivemos o controle do primeiro tempo”, explicou o treinador.
GOL DE RENÊ
O problema apareceu no intervalo. Jair precisou retirar Mateus Silva e Caíque Gonçalves, ambos por problemas físicos. A situação de Caíque chamou ainda mais atenção: depois de levar uma bolada, o volante passou mal, estava vomitando e foi levado ao hospital.
Sem opções para manter a amplitude pelas laterais, Brítez entrou. A mudança obrigou Jair a alterar também o comportamento da equipe, que passou a utilizar o zagueiro na saída de bola.
Antes mesmo de a alteração produzir qualquer efeito, o Cruzeiro golpeou. O primeiro gol da segunda etapa saiu com apenas 30 segundos. Depois, outro vacilo do Vitória terminou em gol após uma cobrança de lateral.
“O segundo tempo foi muito diferente do primeiro, mais uma vez deixamos de ser a mesma equipe. Conversamos no vestiário, mas tomamos um gol com 30 segundos. Não pode acontecer os tempos serem tão diferentes assim. Vamos buscar corrigir isso”, afirmou Jair.
Jair assume a responsabilidade pelo momento
Questionado se o momento vivido pelo treinador poderia afetar o grupo, Jair respondeu que mantém a cabeça firme. O técnico afirmou que continua trabalhando para reverter a fase e lembrou que também ficou incomodado com o empate diante do Mirassol.
“Claro. Assim como a gente é competitivo, a equipe é competitiva. Meu mental é sempre fortíssimo, tentando fazer o melhor, tentando reverter esse momento. A gente ficou chateado com o empate com o Mirassol pela maneira que foi, ninguém ficou feliz. A mesma coisa com uma virada em casa”, disse.
O treinador também assumiu a responsabilidade pela situação.
“Eu sei que sou responsável por tudo aqui, e vou ser sempre, a vida do treinador é assim. Tenho que tentar dar a volta por cima. Temos que repetir os primeiros tempos, não podemos ter essa diferença tão grande entre os dois tempos”, afirmou.
CLASSIFICAÇÃO DO BRASILEIRÃO
Pausa no calendário vira oportunidade
Agora o Vitória terá uma pausa no calendário antes do próximo compromisso. Para Jair Ventura, o período será importante principalmente para recuperar jogadores do departamento médico e trabalhar individualmente atletas que atravessam momentos de queda.
A situação, porém, tem um complicador: a janela de transferências já foi encerrada. Com menos peças disponíveis, cada nova lesão aumenta a dificuldade para o treinador montar a equipe.
“A pausa vai ajudar a recuperar nosso DM. Só que a janela fechou, e quanto menos peças a gente tem, mais dificuldade a gente tem. Enquanto não tiver todas as peças disponíveis, a gente vai ter dificuldade. Perdemos mais um jogador hoje, não sabemos quando o Mateus Silva vai voltar”, explicou.
Jair também voltou a destacar a necessidade de trabalhar o aspecto mental. Para ele, não é aceitável que a equipe sofra um gol tão cedo depois do intervalo nem que abra mão de uma etapa inteira, como ocorreu contra o Mirassol e voltou a acontecer diante do Cruzeiro.
“A situação mental tem que ser trabalhada, não podemos tomar um gol com 30 segundos. Não podemos abrir mão de um tempo inteiro como foi contra o Mirassol. Fizemos tudo isso hoje outra vez. Foram bobeiras nossas, gols totalmente possíveis de não acontecer. No terceiro gol a gente já estava lançado ao ataque. Agora temos que recuperar fisicamente e mentalmente os jogadores para zerar essa situação”, declarou.
Treinador rejeita desculpa física
O número de problemas físicos poderia servir de explicação fácil para uma derrota. Jair Ventura, porém, recusou esse caminho. Disse que atribuir o resultado à parte física seria terceirizar a responsabilidade e fez questão de defender o trabalho do departamento.
“Se eu falar de questão física eu estaria terceirizando a derrota. Eu não trabalho assim, como comandante eu tenho que assumir as responsabilidades. As lesões não são culpa do departamento físico”, afirmou.
O treinador citou Erick como exemplo. Segundo Jair, o atacante viveu o melhor momento da carreira nesta temporada, recebeu elogios públicos e foi exaltado pelo próprio técnico em entrevistas. Agora, entretanto, atravessa uma fase diferente.
A pausa servirá para individualizar trabalhos e tentar recuperar jogadores que já tiveram papel importante na campanha. Jair também citou Lucas Silva e afirmou que é necessário abrir espaço para novas alternativas, sem insistir sempre nas mesmas soluções.
“Estou aqui há um ano e sei o que fazer para recuperar os atletas. Vamos trabalhar para isso, esses jogadores já foram importantes para a gente. A situação do Lucas Silva foi de oportunizar atletas novas, temos que fazer isso, não podemos insistir nas mesmas coisas. Vamos tentar sempre. Não podemos ter resultados diferentes se a gente fizer as mesmas coisas”, disse.
Base pode ganhar espaço
Com a reta final do campeonato se aproximando, a base também aparece no horizonte de Jair Ventura. O treinador confirmou que Jean e Anderson estão integrados ao elenco profissional e podem ser utilizados caso a comissão técnica entenda que sejam necessários.
Os cartões também entram na conta. Para Jair, não existe solução mágica: se um jogador ficar fora, outro precisará ocupar o lugar. O campeonato entra em sua fase decisiva, e o Vitória terá de sobreviver às baixas com as peças que possui.
Chapecoense será o próximo teste
O Vitória só volta a campo depois da pausa para a Data Fifa. O próximo compromisso será novamente no Barradão, contra a Chapecoense, no dia 7 de outubro, pela 29ª rodada do Campeonato Brasileiro.
Mesmo lanterna do campeonato, a Chapecoense não foi tratada por Jair como adversário fácil. O treinador lembrou que a equipe catarinense fez uma boa partida contra o Atlético-MG e merece atenção na preparação.
O Vitória não perdeu posições após a derrota para o Cruzeiro, mas ficou mais perto da zona de rebaixamento. A tabela, portanto, ganhou uma urgência ainda maior. Jair Ventura vê no próximo jogo em casa a oportunidade de reagir e voltar a mirar o pelotão de cima.
No domingo, o Barradão vaiou. Jair Ventura aceitou a vaia. Não houve discurso de vítima, nem tentativa de transformar o torcedor em adversário. O treinador sabe que a arquibancada cobra porque espera. E agora, depois de mais uma derrota marcada pela diferença entre um primeiro tempo competitivo e um segundo tempo desastroso, o Vitória terá alguns dias para encontrar respostas. A vaia passou. A cobrança ficou. E a próxima resposta, como sempre, terá de ser dada onde o futebol realmente decide suas histórias: dentro de campo.



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