Dostoiévski escreveu que a dor é uma forma de purificação. Talvez por isso a festa do Barradão tenha sido tão intensa. Durante dezesseis anos, o torcedor rubro-negro carregou a ausência desse troféu como quem carrega uma ferida antiga. Não era uma tragédia irreparável, mas uma inquietação permanente, dessas que permanecem escondidas nos cantos mais profundos da consciência.
Quando a temporada começou, havia uma obrigação evidente. Entre todos os participantes da Copa do Nordeste, o Vitória era o único representante da Série A do Campeonato Brasileiro. A lógica exigia o título. O futebol, contudo, raramente respeita a lógica. O futebol prefere os caminhos tortuosos, as dúvidas, os medos e os conflitos.
Ainda assim, o Vitória fez aquilo que lhe cabia fazer. E talvez tenha feito algo mais importante: suportou o peso de suas próprias expectativas. Porque não existe carga mais pesada do que a obrigação de vencer.
O vice-campeonato baiano permanece como a única cicatriz visível deste primeiro semestre. Mas mesmo essa derrota parece adquirir outro significado quando observada à distância. Afinal, o Vitória chegou à decisão estadual e disputou uma final em circunstâncias adversas, diante de uma Fonte Nova ocupada exclusivamente por torcedores do rival.
Na Copa do Nordeste, entretanto, não havia espaço para hesitações. Era preciso conquistar. Era preciso confirmar a superioridade técnica. Era preciso transformar potencial em realidade.
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O caminho até a taça
Tudo começou de forma imperfeita. Uma derrota para o Botafogo-PB na estreia parecia anunciar dificuldades futuras. Mas, assim como os personagens literários dos meus livros, o Vitória descobriu que a verdade raramente aparece nos primeiros capítulos.
A partir daquele momento, o time construiu uma trajetória quase irretocável. Foram oito vitórias, um empate e apenas aquela derrota inicial. O melhor ataque da competição marcou 29 gols e alcançou um aproveitamento de 83,3%, o maior da história rubro-negra na Copa do Nordeste.
- 8 vitórias;
- 1 empate;
- 1 derrota;
- 83,3% de aproveitamento;
- 29 gols marcados;
- 15 gols sofridos.
Os números impressionam. Mas números, por si só, não explicam o sentimento. O que explica o sentimento é a percepção de que, pela primeira vez em muitos anos, o Vitória parecia senhor do próprio destino.
O Barradão como fortaleza moral
Existe algo de profundamente simbólico na relação entre o Vitória e o Barradão. Não se trata apenas de um estádio. Trata-se de um território emocional.
Foi ali que o Flamengo caiu na Copa do Brasil. Foi ali que a classificação para as oitavas de final ganhou contornos épicos. Foi ali que o time confirmou que ainda possuía algo raro no futebol contemporâneo: uma casa capaz de intimidar gigantes.
A eliminação do Flamengo representou muito mais do que uma vaga. Representou a demonstração de que o Vitória era capaz de desafiar forças aparentemente superiores. Em um campeonato onde a obrigação havia desaparecido no momento do sorteio, o clube encontrou liberdade para sonhar.
Não por acaso, o time chega à pausa da Copa do Mundo sem derrotas em casa há dez partidas. O Barradão tornou-se o refúgio da alma rubro-negra. Um lugar onde as dúvidas diminuem e as certezas encontram abrigo.
A realidade continua esperando
Mas toda redenção traz consigo novas responsabilidades.
No Campeonato Brasileiro, o Vitória ocupa a 13ª colocação com 22 pontos e um jogo a menos. Não é uma campanha brilhante. Também não é uma campanha desesperadora. É, sobretudo, uma campanha compatível com a realidade de um clube que ainda luta para consolidar sua permanência entre os grandes.
A ameaça do rebaixamento continua próxima. Apenas dois pontos separam o Rubro-Negro da zona de perigo. E existe um problema que permanece sem solução: os jogos fora de casa.
Longe de Salvador, o Vitória ainda demonstra fragilidades. Como um personagem dividido entre dois impulsos contraditórios, o time parece possuir duas identidades distintas. Em casa, impõe respeito. Fora dela, vacila diante dos próprios fantasmas.
É justamente aí que mora o desafio do segundo semestre. O clube precisará reforçar o elenco, ampliar alternativas e encontrar equilíbrio emocional para enfrentar ambientes hostis.
Uma pausa para contemplar a própria obra
Por enquanto, contudo, existe o direito à contemplação.
A Copa do Nordeste retornou ao Barradão depois de dezesseis anos. O Vitória eliminou o Flamengo. Classificou-se às oitavas da Copa do Brasil. Manteve-se fora da zona de rebaixamento durante a maior parte da Série A. E, acima de tudo, recuperou algo que parecia adormecido: a confiança.
Dostoiévski acreditava que a beleza salvaria o mundo. No futebol, talvez a beleza não salve o mundo. Mas pode salvar uma temporada. Pode restaurar uma identidade. Pode devolver a esperança.
O primeiro semestre do Vitória foi exatamente isso: uma lenta reconstrução da esperança. E, para um clube que passou tantos anos procurando novamente a própria grandeza, talvez não exista conquista mais valiosa do que essa.



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